domingo, 20 de agosto de 2017

Aposta de Pascal - visão alternativa

Queremos evoluir alguma imperfeição em nosso comportamento automático. Por exemplo, muito nos incomoda um estado agudo de irritabilidade que brota após a provocação de alguém.

Se analisamos a questão pelo ângulo da continuidade da vida após a morte, podemos nos conformar em fazer pequenas correções neste comportamento a cada ocasião, visando atingir um estado de tranquilidade no futuro distante. Afinal, é bem mais comum idosos se mostrarem sábios e impassíveis diante da ansiedade de curto prazo manifestada pelos jovens nos acontecimentos cotidianos.

Mas se pensarmos numa existência finita, durando menos que um século, torna-se urgente nos apressarmos para alcançar a habilidade da paciência. Afinal, uma pequena irritação pode nos fazer perder um dia ou dois de tranquilidade, que são preciosos diante do nosso tempo restante.

Assim, em alguns aspectos parece que vale a pena nos comportarmos de forma oposta à conclusão do post mais antigo sobre a Aposta de Pascal: considerar a vida como passageira nos impulsiona a buscar melhorias sem perdas de tempo.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Como seria a vida fora do trabalho?

Qual seria sua principal atividade se já tivesse um patrimônio suficiente para, apenas com os rendimentos, suprir todas as necessidades básicas de sua família, como alimentação, saúde, moradia e educação?*


  • Continuaria trabalhando, para ter dinheiro para viajar ou frequentar bons restaurantes

  • Dedicaria a vida a trabalhos voluntários, para melhorar a vida de outras pessoas

  • Buscaria imersão em atividades relacionadas à arte

  • Escolheria descanso e ócio

  • Focaria na esfera espiritual

  • Estudaria a fundo um ou mais temas de interesse

  • Preferiria diversões de baixo custo, como TV, internet, passear pela cidade, atividades físicas




* isso pode ser possível, por exemplo, se você tiver um patrimônio livre de 400 vezes seus gastos mensais

segunda-feira, 3 de abril de 2017

O sentido da vida segundo Tim Ferris

Fonte: Trabalhe 4 horas por semana, p. 322

Essas dúvidas [sobre a decisão de sair da engrenagem] invadem a mente quando não há nada a ocupá-la. Pense em uma hora em que você se sinta 100% vivo e concentrado. É provável que seja uma hora em que você tenha estado completamente focado em algo externo: algo ou alguém. Esporte e sexo são dois grandes exemplos. Faltando um foco externo, a mente volta-se para si mesma e cria problemas para serem resolvidos, mesmo que os problemas sejam indefinidos ou desimportantes. Se você encontrar um foco, um objetivo ambicioso que pareça impossível e force você a crescer (experiência máxima da hierarquia das necessidades de Maslow), essas dúvidas desaparecem.

No processo de procurar um novo foco, é praticamente inevitável que as “grandes” questões apareçam. Há uma pressão onipresente dos pseudofilósofos para deixar de lado o impertinente e responder ao eterno. Dois exemplos populares são “qual o sentido da vida?” e “qual é o ponto disso tudo?”.

Há muitas outras, das mais introspectivas às ontológicas, mas tenho uma resposta para praticamente todas elas – simplesmente não respondê-las.

Não sou niilista. Na verdade, passei mais de uma década investigando a mente e o conceito de sentido, uma busca que me levou dos laboratórios de neurociência das melhores universidades a instituições religiosas mundo afora. A conclusão, depois de tudo, é surpreendente.

Estou 100% convicto de que a maior parte das grandes questões que nos sentimos compelidos a enfrentar – legadas através de séculos de pensar excessivamente e traduções ruins – usam termos tão indefinidos que tentar respondê-las é uma completa perda de tempo. Isto não é deprimente. É libertador.

Pense na pergunta das perguntas: Qual é o sentido da vida?

Se pressionado, tenho apenas uma resposta: é o estado característico ou a condição de um organismo vivo. “Mas isso é apenas uma definição”, retrucará quem perguntou, “não é isso que eu quero dizer.” O que você quer dizer, então? Até que a pergunta esteja clara – cada termo nela bem definido -, não há por que respondê-la. A pergunta sobre o “sentido” da “vida” é irrespondível sem uma elaboração posterior.

Antes de gastar tempo em uma pergunta estressante, grande, ou qualquer outra coisa, garanta que a resposta para as duas perguntas a seguir seja “sim”:

1. Defini um único significado para cada termo nesta pergunta?
2. Uma resposta para esta pergunta pode ser posta em prática para melhorar as coisas?

“Qual o sentido da vida?” falha em ambas as perguntas. Questões sobre coisas além de sua esfera de influência – como “E se o trem atrasar amanhã?” – falham na segunda e, por isso, merecem ser ignoradas. Se você não puder definir ou não puder agir, esqueça. Se você aprender apenas isso com este livro, você estará entre o 1% mais realizador no mundo e manterá a maior parte do estresse filosófico para fora de sua vida.

Afiar sua caixa mental de ferramentas práticas e lógicas não significa se tornar um ateu ou agnóstico. É não ser burro e não ser superficial. É ser inteligente e direcionar os seus esforços para onde possam fazer a diferença para você e para os outros.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Conselhos ao estudante de Física

Estas dicas são principalmente para o aluno de graduação que está cursando bacharelado em Física, com habilidades normais.

Embora as notas de aula do professor, que geralmente consistem em um caderno (ou fotocópia de um) que espelha o quadro-negro, contenham aquilo que o professor mais dá valor, com o viés que ele talvez cobre em prova, para a carreira do estudante é muito importante ler o livro-texto de cada matéria. Para eleger um livro, um bom caminho é optar por aquele com mais críticas positivas na Amazon americana (nota boa e relativamente grande quantidade de avaliações). Os livros bem avaliados costumam ser os mais didáticos e inspiradores. Com eles, será possível ter uma fonte de referência que vai durar por mais tempo que o caderno, e além disso há a tendência de ser um material mais completo, já que o professor muitas vezes seleciona apenas alguns tópicos, com base em algum critério específico.

É prudente também evitar desviar muito os estudos para alguma outra área de interesse. Quem pretende se engajar na pesquisa acadêmica será prejudicado se estiver frequentando simultaneamente outro curso de graduação, ou então se dedicar tempo demais para estudar tópicos como economia, investimento na bolsa de valores, filosofia, etc. Cada um destes assuntos é bastante profundo, de forma que em uma vida não é possível abarcar tudo - isso para quem não tem a intenção de ser um generalista (que sabe de tudo um pouco), mas sim pretende ser um especialista (saber muito, mas de um tema específico). Uma site interessante que trata da dicotomia quantidade/qualidade é do Cal Newport (talvez os livros dele sejam mais completos - 1, 2).

Os cientistas de ponta, que realmente fazem progresso, costumam estudar várias horas por dia. Portanto, quem se contenta apenas com as aulas e o estudo mínimo para uma boa nota na prova está sendo ultrapassado por diversos alunos ao redor do mundo que, durante a graduação, procuram se aprofundar mais. Por exemplo, que tal ler todo o Feynman Lectures on Physics? É o mesmo assunto que já é ensinado, mas provavelmente visto de outra forma. Demanda tempo e calma na leitura, mas certamente irá solidificar os conceitos.

Para produzir motivação e expandir os horizontes, é proveitoso ler textos de divulgação científica. Blogs como Arstechica trazem matérias com o estado da arte de algumas áreas da Física, explicando os recentes artigos científicos de uma maneira acessível. Além disso, há muitos livros que são uma ótima fonte de estímulos, como o Surely You're Joking, Mr. Feynman!. Outros livros: O Andar do Bêbado, O Universo Elegante.

Para as questões que alguém possa ter vergonha de perguntar, por parecerem básicas demais (como por exemplo - é possível que o espaço-tempo se expanda mais rápido que a luz?), existem os fóruns na internet com respostas muito didáticas. Por exemplo, Stack Exchange. Nestes lugares encontra-se muita coisa inútil, mas em geral as informações importantes recebem muitas avaliações positivas, e acabam se destacando.

Da leitura dos parágrafos anteriores, percebe-se como é importante conseguir ler textos em inglês. Quem pretende ser um pesquisador em Física em algum momento terá que ser fluente na leitura. E conseguir a fluência é um processo trabalhoso, que demanda muito tempo de leituras mal compreendidas, até que se consiga entender um texto técnico rapidamente. Por isso, quanto antes se começar, mais cedo serão colhidos os benefícios, já que a escalada do aprendizado terá que ser encarada mais cedo ou mais tarde.

Física experimental vs. física teórica - é comum já na graduação ter predileção por uma das áreas. No primeiro caso, diminui-se a atenção para as deduções algébricas e demonstrações. No segundo, dá-se menos valor para as técnicas de análise de erros, ou para as soluções numéricas. Entretanto, é preciso conhecer profundamente todas estas áreas (nos limites da graduação), pois pode-se descobrir alguma vocação inesperada. Ou ainda, conhecimento de uma delas pode influenciar na solução de problema de outra. Afinal, num acelerador de partículas não há físicos experimentais programando computadores, analisando dados estatísticos, calculando analiticamente se é possível que determinado equipamento cause determinado efeitos nos resultados? E um físico teórico não precisa enumerar os efeitos verificáveis de uma determinada teoria, dentro dos limites experimentais disponíveis?

Mesmo quem futuramente resolver mudar de área e tentar uma eventual carreira no mercado financeiro (ver Early Retirement Extreme, ou algum blog sobre "Quants"), em geral só terá as condições necessárias para o sucesso se estiver disposto a uma imersão total nas matérias estudadas na graduação, pois na prática o que importa é saber enfrentar problemas em aberto, ter a visão do todo, conseguir relacionar diferentes áreas do conhecimento, construir a persistência para ler artigos científicos, etc.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Compatibilismo (Compatibilism)

Na novilíngua de Orwell existem palavras como "negrobranco"; que tal adicionar determinismolivrearbítrio?

In Orwell's newspeak there are words like "blackwhite"; how about adding determinismfreewill?

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Promessas para 2017

Ao elaborarmos nossa lista, incentivados por uma gama de estímulos que surgem no final do ano, surge a tendência de sempre incluir novos itens, para chegarmos a ser a pessoa ideal daqui a doze meses.

Se queremos ser mais sociáveis a partir de agora, por que não planejar também a leitura de um livro por mês? E que tal exercícios às segundas, quartas e sextas? E quanto a uma dieta de baixo carboidrato?

Mas mudar de um estado de relativa inércia para uma vida regrada por tantos desejos é abrupto demais para nossa capacidade.

Por isso, a sugestão é: resistir à tentação de querer ser muito melhor em 2017, e ficar apenas com uma característica, mesmo que isso signifique abrir mão da barriga tanquinho ou do estudo da obra de um filósofo.

Que tal escolhermos ser mais calmos? Mais tranquilos, menos estressados?

Não é uma decisão sem algumas implicações profundas.

Afinal teremos que evitar irritação no trânsito, cuidar para não pensar em trabalho quando estivermos em outra atividade, encontrar métodos para não ficar demais pensando em situações desagradáveis, reduzir expectativas para reduzir frustrações.

A lista de benefícios também é generosa: dormir melhor, um eventual melhor funcionamento do sistema digestivo, evitar palpitações, conseguir com que as pessoas queridas se sintam mais bem tratadas, e quem sabe até conseguir a força de vontade para cortar o açúcar.

domingo, 27 de novembro de 2016

Livre arbítrio no homem racional

O senso comum imagina que, naturalmente, temos livre arbítrio, pois podemos escolher o que comer no almoço, a nossa profissão, como dispor do tempo livre, etc.

Existe também a corrente contrária ao livre arbítrio; o determinista Laplace já havia sugerido uma calculadora que, em posse de todos os dados sobre o mundo, poderia calcular com exatidão os estados futuros, incluindo a disposição das partículas do cérebro humano, o que implica em conhecer nosso comportamento. Até alguns estudiosos do cérebro atualmente colocam em dúvida a ideia do livre arbítrio, ao demonstrar em experimentos que, quando achamos que estamos tomando uma decisão, nosso cérebro já havia decidido alguns instantes atrás, sem que tivéssemos consciência. Também poderíamos argumentar que, por exemplo, ninguém escolhe sua profissão de maneira totalmente livre, mas sim influenciado por sua condição econômica, por algum professor carismático, ou em consonância com habilidades que a pessoa simplesmente descobre em si.

Entretanto, é possível levantar outro ponto. Se somos racionais, e estamos sempre tentando fazer a coisa certa, aquela que melhor atenda aos nossos interesses (sejam eles egoístas ou altruístas), então como podemos ter livre arbítrio? Se a nossa decisão sempre será aquela que nos beneficiará, limitada obviamente por nossa capacidade de decidir e por nossas fraquezas, como podemos estar "escolhendo" algo?

É claro que tomamos muitas decisões erradas. Fazemos coisas que nos arrependemos depois, e pior, fazemos coisas já sabendo que vamos nos arrepender. Nesse ponto podemos responder que é possível ter livre arbítrio: a escolha entre a virtude e o vício. Mas muitas pessoas tentando emagrecer sabem que a escolha não é irrevogável.

Mas, supondo agora uma pessoa que opte totalmente pelas virtudes em detrimento do vício. Que consiga estudar à noite, acordar cedo, comer de modo saudável e cuidar das pessoas próximas. Mesmo esta pessoa vai se deparar com diversas escolhas: como ter uma vida com sentido, como aproveitar o tempo, que tipos de assunto estudar, etc. Ela pode fazer escolhas erradas, mas terá sido por incapacidade de ter uma visão ampla do mundo, ou por azar. Na medida em que ela sempre tenta escolher o que é melhor para ela, dadas as condições do momento, onde está o seu livre arbítrio? Ela pode escolher entre pensar, descansar, ter prazer, trabalhar. Mas fará isso sempre com o objetivo de ser uma pessoa melhor. Escolherá o que ela julga mais propício para ser melhor - então as escolhas não são livres, e sim dadas por uma equação que independe da vontade da pessoa. Ninguém fará uma escolha com o único objetivo de sofrer, de se dar mal.

Isso quer dizer que, independente de Laplace ou das peças que prega nosso inconsciente, as pessoas que decidem ser racionais perdem a partir daí o livre arbítrio?