terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Promessas para 2017

Ao elaborarmos nossa lista, incentivados por uma gama de estímulos que surgem no final do ano, surge a tendência de sempre incluir novos itens, para chegarmos a ser a pessoa ideal daqui a doze meses.

Se queremos ser mais sociáveis a partir de agora, por que não planejar também a leitura de um livro por mês? E que tal exercícios às segundas, quartas e sextas? E quanto a uma dieta de baixo carboidrato?

Mas mudar de um estado de relativa inércia para uma vida regrada por tantos desejos é abrupto demais para nossa capacidade.

Por isso, a sugestão é: resistir à tentação de querer ser muito melhor em 2017, e ficar apenas com uma característica, mesmo que isso signifique abrir mão da barriga tanquinho ou do estudo da obra de um filósofo.

Que tal escolhermos ser mais calmos? Mais tranquilos, menos estressados?

Não é uma decisão sem algumas implicações profundas.

Afinal teremos que evitar irritação no trânsito, cuidar para não pensar em trabalho quando estivermos em outra atividade, encontrar métodos para não ficar demais pensando em situações desagradáveis, reduzir expectativas para reduzir frustrações.

A lista de benefícios também é generosa: dormir melhor, um eventual melhor funcionamento do sistema digestivo, evitar palpitações, conseguir com que as pessoas queridas se sintam mais bem tratadas, e quem sabe até conseguir a força de vontade para cortar o açúcar.

domingo, 27 de novembro de 2016

Livre arbítrio no homem racional

O senso comum imagina que, naturalmente, temos livre arbítrio, pois podemos escolher o que comer no almoço, a nossa profissão, como dispor do tempo livre, etc.

Existe também a corrente contrária ao livre arbítrio; o determinista Laplace já havia sugerido uma calculadora que, em posse de todos os dados sobre o mundo, poderia calcular com exatidão os estados futuros, incluindo a disposição das partículas do cérebro humano, o que implica em conhecer nosso comportamento. Até alguns estudiosos do cérebro atualmente colocam em dúvida a ideia do livre arbítrio, ao demonstrar em experimentos que, quando achamos que estamos tomando uma decisão, nosso cérebro já havia decidido alguns instantes atrás, sem que tivéssemos consciência. Também poderíamos argumentar que, por exemplo, ninguém escolhe sua profissão de maneira totalmente livre, mas sim influenciado por sua condição econômica, por algum professor carismático, ou em consonância com habilidades que a pessoa simplesmente descobre em si.

Entretanto, é possível levantar outro ponto. Se somos racionais, e estamos sempre tentando fazer a coisa certa, aquela que melhor atenda aos nossos interesses (sejam eles egoístas ou altruístas), então como podemos ter livre arbítrio? Se a nossa decisão sempre será aquela que nos beneficiará, limitada obviamente por nossa capacidade de decidir e por nossas fraquezas, como podemos estar "escolhendo" algo?

É claro que tomamos muitas decisões erradas. Fazemos coisas que nos arrependemos depois, e pior, fazemos coisas já sabendo que vamos nos arrepender. Nesse ponto podemos responder que é possível ter livre arbítrio: a escolha entre a virtude e o vício. Mas muitas pessoas tentando emagrecer sabem que a escolha não é irrevogável.

Mas, supondo agora uma pessoa que opte totalmente pelas virtudes em detrimento do vício. Que consiga estudar à noite, acordar cedo, comer de modo saudável e cuidar das pessoas próximas. Mesmo esta pessoa vai se deparar com diversas escolhas: como ter uma vida com sentido, como aproveitar o tempo, que tipos de assunto estudar, etc. Ela pode fazer escolhas erradas, mas terá sido por incapacidade de ter uma visão ampla do mundo, ou por azar. Na medida em que ela sempre tenta escolher o que é melhor para ela, dadas as condições do momento, onde está o seu livre arbítrio? Ela pode escolher entre pensar, descansar, ter prazer, trabalhar. Mas fará isso sempre com o objetivo de ser uma pessoa melhor. Escolherá o que ela julga mais propício para ser melhor - então as escolhas não são livres, e sim dadas por uma equação que independe da vontade da pessoa. Ninguém fará uma escolha com o único objetivo de sofrer, de se dar mal.

Isso quer dizer que, independente de Laplace ou das peças que prega nosso inconsciente, as pessoas que decidem ser racionais perdem a partir daí o livre arbítrio?

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Experimento mental - "ignorância é uma bênção" vs. conhecimento

Supondo que somos finitos. É preferível, em relação a esta eventual condição:

1) ignorância, com uma estrutura mental que nos permita não pensar muito no assunto

É mais ou menos como vivem hoje muitas pessoas. Independente se conscientemente ou não, elas mantêm o foco nas questões práticas do curto prazo, organizando suas vidas em torno de esforços e recompensas.

2) ou adquirir consciência plena, com base em evidências científicas irrefutáveis

As pessoas iriam se concentrar mais na busca concreta pelo prazer? Isso seria benéfico, em termos líquidos, para o bem-estar geral?

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Mecanismos de defesa contra o medo da finitude da vida

  • uvas verdes: nem seria bom viver para sempre, pois tudo ficaria repetitivo. Chega uma hora em que não há nada diferente para fazer; imagine que chato não mudar, não envelhecer nunca... O mundo ficaria muito cheio, não poderíamos ser velhos ranzinzas que seriam respeitados pelas crianças. Uns 80 anos já é muito tempo, já dá pra ficar bem cansado de tanto trabalhar
  • limões doces: acaba sendo melhor não viver para sempre, pois aí damos mais valor para o tempo que temos. Somos obrigados a viver tendo que planejar início, meio e fim; aproveitamos cada dia como se fosse o último
  • somatização: o medo do fim causa ansiedade, tensão, dores sem causa. Isso é bom porque com todos esses sintomas vamos praticar yoga, meditação ou planejar uma longa viagem para relaxar e acabamos esquecendo do verdadeiro problema
  • "regressão": natural mesmo é viver como o homem antigo, sem se preocupar com essas coisas, mas apenas com o sustento da próxima refeição. Essas pessoas sim eram felizes
  • fantasia: vai que exista um mundo mágico (como o do filme Avatar) nos esperando - ficar imaginando como seria é bom porque tiramos o foco do verdadeiro problema
  • prazer anestesiante: mergulhar em desafios, resolver problemas complicados, dedicar-se a conhecer todas as sensações do paladar e do sexo para que as atividades prazerosas não deixem tempo para pensar no verdadeiro problema

Atividade-meio - atividade-fim

Uma empresa que fabrica aviões tem como atividade-fim a pesquisa, aquisição de matéria-prima, construção e venda de aviões. Já as atividades-meio são a gestão de recursos humanos, a infraestrutura de informática, a contabilidade, a limpeza, etc.

A administração pública tem como atividade-fim o provimento de serviços públicos (segurança, justiça, saúde, educação). E as atividades-meio são a receita, a controladoria, a estatística, etc.

E na nossa vida, quais as atividades-fim e as atividades-meio? Será que comer, cursar faculdade, trabalhar, praticar exercícios, cuidar da saúde, descansar, dormir, educar os filhos, ajudar as pessoas carentes, fazer compras, aprender idiomas, são todas atividades-meio? E nesse caso, quais seriam as grandes atividades-fim, objetivos principais da nossa vida para os quais fazemos todas atividades-meio?

Para o hedonista, atividade-fim é comer e beber com prazer, divertir-se com outras pessoas - e atividades-meio são trabalhar, cuidar da saúde, estudar.

Para o altruísta, atividade-fim é ajudar os outros - e atividades-meio são todas as outras.

Para quem encontra total satisfação na resolução de problemas (da matemática, computação, de engenharia, de gestão empresarial, etc.), a atividade-fim é trabalhar - e atividade-meio são todas as outras.

Para o espiritualista (no sentido geral), tudo isso é atividade-meio, e atividade-fim é dedicar-se a algo imaterial.

Para o existencialista, cada um deve perceber que não tem atividade-fim definida, e deve eleger a sua.

Para o absurdista, a atividade-fim é tomar consciência de que tudo é atividade meio.

Para o niilista, não existe atividade fim, e tudo é atividade meio.


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Experimento Mental - Volta às origens

Passada boa parte do pós-modernismo, as pessoas já passaram pela fase do "ter", e também do "ser". Não há mais graça em acumular bens materiais, nem em ter experiências intensas como ir a festas, viajar, ficar bêbado. Todas essas sensações já são bem conhecidas e não conseguem preencher o vazio na vida da população. Alguns grupos até organizaram protestos na rua contra a existência do mundo, com cartazes e tudo. O idealismo das histórias heroicas parece pura ficção, e o niilismo dos filmes do Tarantino já virou clichê. A aventura da construção do conhecimento também não empolga mais, uma vez que as ciências exatas e naturais chegaram em pontos onde é muito lento e abstrato qualquer mínimo progresso - no período de um século, muito pouco se acrescenta às teorias já estabelecidas.

É então que, após longo debate sobre a moralidade da questão, conclui-se que vale a pena iniciar um novo experimento. Cria-se um novo mundo, onde viverão alguns seres que nascerem após aquela data. Neste lugar, ninguém terá comida garantida ao final do dia, e será necessário gastar boa parte do tempo disponível para encontrar abrigo e alimento, e projetar sistemas que garantam o mínimo de conforto. Será um mundo seguro, mas que exigirá grande dose de esforço de seus habitantes. Quem morar neste lugar será mais feliz que as pessoas do mundo real pós-moderno, pois haverá aventuras, o prazer da recompensa, e cada um poderá se regozijar com seu heroísmo e solucionar problemas importantes. Será que no futuro este será o lugar onde quase todos viverão?

Experimento Mental - Brain in a vat

Uma mulher bonita já está cansada das desilusões amorosas, enjoada da futilidade dos relacionamentos que viveu. Encontra uma pessoa na internet e se interessa por suas características, seu jeito de pensar e conversar, seu modo de ver o mundo. Mas depois descobre que esta pessoa não é um ser humano comum, mas sim alguém que já teria morrido fisicamente, não tem mais um corpo e só consegue se comunicar porque seu cérebro foi conectado com a internet. E por meio desta conexão é capaz de ouvir sons e ver imagens, além de escrever.

A mulher poderá ser feliz se relacionando com alguém que nunca poderá encontrar? E para a pessoa que só tem o cérebro, vale a pena viver, podendo interagir apenas com o que acontece na internet?