quinta-feira, 26 de abril de 2012

Trechos de Livros - A Negação da Morte, de Ernest Becker

Maslow (A Negação da Morte, p. 76)
Nossa tendência é temer qualquer conhecimento que possa fazer com que desprezemos a nós mesmos ou com que nos sintamos inferiores, fracos, inúteis, maus, vergonhosos. Nós nos protegemos e protegemos a imagem ideal de nós mesmos por meio da repressão e das defesas semelhantes, que são essencialmente técnicas pelas quais evitamos a consciência de verdades desagradáveis e perigosas.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 80)
Não queremos admitir que somos fundamentalmente desonestos no que se refere à realidade, que não controlamos realmente nossas próprias vidas. Não queremos admitir que não ficamos sozinhos, que sempre nos apoiamos em algo que nos transcende, um certo sistema de ideias e poderes no qual estamos mergulhados e que nos sustenta. Esse poder nem sempre é óbvio: não previsa ser um deus ou uma pessoa mais forte, mas pode ser o poder de uma atividade que exija plena dedicação, uma paixão, a dedicação a um jogo, um modo de vida que, como uma teia confortável, mantém a pessoa apoiada e ignorante a respeito de si própria e ao fato de que ela não se apoia em seu próprio centro. Todos nós somos levados a sobreviver de uma maneira desinteressada, ignorando quais as energias que realmente consumimos e que tipo de mentira criamos a fim de vivermos segura e serenamente.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 161)
Os homens adoram e temem o poder e, por isso, dedicam sua lealdade àqueles que sabem administrá-lo.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 167)
Ao explicar o poder preciso que mantinha os grupos unidos, Freud também pôde mostrar por que os grupos não temem o perigo. Os membros não sentem que estão sozinhos com sua própria insignificância e seu desamparo, já que têm os poderes do líder-herói com quem estão identificados. O narcisismo natural – a sensação de que a pessoa que está ao seu lado vai morrer mas você não – é reforçado pela dependência confiante do poder do líder.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 190)
Vemos agora o que poderíamos chamar de tragédia ontológica ou da criatura, que é tão peculiar ao homem: se ele cede ao Ágape, corre o risco de não se desenvolver, o que é a sua contribuição ativa ao resto da vida. Se expande Eros em demasia, arrisca-se a separar-se da dependência natural, do dever para com uma criação mais ampla afastando-se do poder curativo da gratidão e da humildade que deve sentir naturalmente por ter sido criado, por lhe ter sido concedida a oportunidade de experimentar a vida.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 219)
Quando dizemos que a neurose representa a verdade da vida, uma vez mais queremos dizer que a vida é um problema esmagador para um animal desprovido de instinto. O indivíduo tem que se proteger contra o mundo, e só pode fazê-lo como faria qualquer outro animal: reduzindo o tamanho do mundo, barrando a entrada da experiência, desenvolvendo uma alienação tanto dos terrores do mundo quanto de suas próprias angústias. Caso contrário, ficaria incapacitado para agir. Nunca será demais repetir a grande lição da psicologia freudiana: a de que a repressão é a autoproteção normal, uma auto-restrição criativa – numa acepção verdadeira, o substituto natural do instinto, para o homem. Rank tem um termo-chave perfeito para esse talento natural do homem: ele o chama de “parcialização” e percebe que a vida é impossível sem ela. Aquilo que chamamos de homem bem-ajustado possui exatamente essa capacidade de parcializar o mundo para poder agir de maneira satisfatória. (…) Os homens não são feitos para assimilarem o mundo inteiro; são feitos, como outras criaturas, para assimilar o pedaço de terra que está diante de seus focinhos. Os deuses podem assimilar a totalidade da criação, porque só eles podem entendê-la, saber de que se trata e para que serve. Mas assim que o homem levanta o nariz do chão e começa a farejar problemas eternos, como a vida e a morte, o significado de uma rosa ou um grupo de estrelas – aí ele se complica. A maioria dos homens se poupa dessa complicação, mantendo a mente concentrada nos pequenos problemas de suas vidas, tal como a sociedade em que vivem traça esses problemas para eles. São os que Kierkegaard chamava de homens “imediatos” e de “filisteus”. Eles “se tranquilizam com o trivial” – e assim podem levar suas vidas normais.
Roy Waldman (A Negação da Morte, p. 222)
Deve ficar claro que o desespero e a angústia de que o paciente reclama não são resultado desses sintomas, mas sim a razão para a sua existência. Na verdade, são exatamente esses sintomas que o protegem do tormento das profundas contradições que estão no cerne da existência humana. Uma determinada fobia ou obsessão é justamente o meio pelo qual o homem alivia o peso das tarefas de sua vida, e consegue minorar a sua sensação de insignificância. Assim, os sintomas neuróticos servem para reduzir e estreitar – para, num passe de mágica, transformar o mundo de maneira que o paciente possa ter a atenção desviada de suas preocupações com a morte, a culpa e a insignificância. O neurótico preocupado com o seu sintoma é levado a acreditar que a sua tarefa principal é enfrentar essa determinada obsessão ou fobia. Em certo sentido, sua neurose lhe permite assumir o controle de seu destino – transformar todo o significado da vida num significado simplificado, originários do seu mundo peculiar.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 228)
Houve uma época em que eu ficava imaginando como é que as pessoas aguentavam trabalhar em torno daqueles infernais fogões em cozinhas de hotéis, a loucura do escritório de um agente de viagens no auge da temporada de turismo, ou a tortura de trabalhar o dia inteiro na rua com uma perfuratriz automática, num verão calorento. A resposta é tão simples, que nem a percebemos: a loucura dessas atividades é exatamente a da condição humana. Elas estão “certas” para nós, porque a alternativa é o desespero natural. A loucura diária desses empregos é uma repetida vacina contra a loucura do hospício. Veja a alegria e a disposição com que os trabalhadores voltam das férias para suas rotinas compulsivas. Mergulham no seu trabalho com tranquilidade e alegria, porque o trabalho abafa algo mais sinistro.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 243)
Além de um determinado ponto, o que ajuda o homem não é um “saber” mais, mas um viver e um fazer, de uma maneira que o faça esquecer parcialmente de si mesmo. Como disse Goethe, temos de mergulhar na experiência e, então, refletir sobre o significado dela. Só a reflexão, sem mergulho, nos leva à loucura; só o mergulho, sem reflexão, nos torna brutos.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 245)
Não há ninguém mais lógico do que o lunático, ninguém mais preocupado com as minúcias de causa e efeito. Os loucos são os maiores argumentadores que conhecemos, e essa peculiaridade é uma das companheiras de sua ruína. Todos os seus processos vitais se retraíram para dentro da mente. Qual é a única coisa que lhes falta e que os homens equilibrados possuem? A capacidade de serem descuidados, de não ligarem para as aparências, de se descontraírem e de rirem do mundo.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 300)
Erich Fromm já havia descrito bem o masoquismo como uma tentativa de se livrar do ônus da liberdade. Do ponto de vista clínico, verificamos que há pessoas tão fracas diante da responsabilidade que chegam até a ter medo da liberdade proporcionada por um bom estado de saúde e vigor. Na mais extrema das perversões, a necrofilia, vemos o mais extremo medo da vida e das pessoas. Um dos pacientes de Brill tinha tanto medo de cadáveres, que quando venceu esse medo tornou-se necrófilo, porque ficara fascinado pela liberadade que acabara de conquistar.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 302)
Podemos ver como são realmente inseparáveis os domínios da psiquiatria e da religião, já que ambas lidam com a natureza humana e com o significado máximo da vida. Deixar a estupidez para trás é tornar-se ciente da vida como um problema de atos heróicos, o que inevitavelmente se torna uma reflexão sobre o que deveria ser a vida em suas dimensões ideais. Com base nesse ponto de vista, podemos ver que as perversões das “religiões particulares” não são “falsas” em comparação com as “religiões verdadeiras”. São simplesmente menos expansivas, menos humanamente nobres e responsáveis. Todos os organismos vivos estão condenados à perversidade, à estreiteza de serem meros fragmentos de uma totalidade maior que os assoberba, que eles não conseguem compreender ou enfrentar de veradade – e no entanto ainda têm que viver e lutar nessa totalidade. Ainda devemos perguntar, então, à feição do sábio velho Epicteto, que tipo de perversão é adequada ao homem.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 308)
Kierkegaard tinha uma fórmula própria para o que significa ser um homem. Ele a expôs naquelas páginas admiráveis nas quais descreve o que chama de “o cavaleiro da fé”. Essa figura é o homem que vive na fé, que entregou o significado da vida ao seu Criador e que vive concentrado nas energias do seu Deus. Aceita sem reclamar o que quer que aconteça nessa dimensão visível, vive a vida como um dever, enfrenta a morte sem receio. Nenhuma ninharia é tão insignificante a ponto de ameaçar seus significados. Tarefa nenhuma é amedrontadora demais para estar acima de sua coragem. Ele se encontra plenamente no mundo segundo as condições impostas por esse mundo, e totalmente fora do mundo na sua confiança na dimensão invisível.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 308)
Como disse Kierkegaard, a fé é o que há de mais difícil: ele se coloca entre a crença e a fé, incapaz de dar o salto. Afinal, o salto não depende do homem – e aí é que está a dificuldade: fé é uma questão de graça.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 310)
Cada indivíduo resume toda uma gama de experiências muito pessoais, de modo que a sua vida constitui um problema muito característico que precisa de tipos de soluções muito individuais.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 316)
O ponto essencial da argumentação de Rieff é o clássico: para ter-se uma existência verdadeiramente humana, deve haver limites; e aquilo que chamamos de cultura ou de superego fixa esses limites. A cultura é uma solução conciliatória com a vida que torna possível a vida humana. Ele cita a desafiadora frase revolucionária de Marx: “Eu nada sou e deveria ser tudo.” Para Rieff, isso é o puro inconsciente infantil falando – ou, como eu preferiria dizer junto com Rank, a consciência neurótica: o “tudo ou nada” da pessoa que não consegue “parcializar” o seu mundo.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 320), Ars longa, vita brevis
Uma pessoa leva anos para formar sua individualidade, desenvolver seu talento, seus dons ímpares, aperfeiçoar suas discriminações com relação ao mundo, ampliar e aguçar o apetite, aprender a suportar as desilusões da vida, amadurecer, tornar-se moderada – enfim, uma criatura ímpar na natureza, situando-se com certa dignidade e nobreza e transcendendo a condição animal; não mais movida só por impulsos, não mais puro reflexo, não estampada por nenhum molde. E aí vem a verdadeira tragédia: são necessários sessenta anos de incríveis sofrimentos e esforços para formar um indivíduo desses, e aí ele só serve para morrer. Esse doloroso paradoxo a pessoa não o ignora, de modo algum. Ela se sente dolorosamente um ser especial, mas sabe que isso não faz diferença alguma no que se refere a coisas definitivas.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 324)
A religião é uma experiência, e não apenas um conjunto de conceitos intelectuais sobre os quais se deva meditar; ela tem que ser vivida.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O que está por trás do "sentido da vida"

Querer saber qual o sentido da vida pode ser equivalente a buscar respostas para questões fundamentais:

  • por que existe algo em vez do nada?
  • nossa característica de ter uma inquietude profunda sobre a vida surgiu por acaso, como efeito colateral da evolução natural, ou foi criada conscientemente por um ser superior?
  • deixamos de existir, como indivíduos conscientes, com a morte física?
  • se não, viveremos para sempre ou há um limite?

Pela profundidade destas perguntas, percebe-se que compreender o sentido da vida não é tarefa simples, isolada de questões filosóficas basilares ainda inacessíveis ao nosso conhecimento.

Há também alguns pontos adicionais.

  • E se não existir sentido nenhum, caso nossa existência seja fruto do mero acaso? Sendo assim, resta o existencialismo, segundo o qual cabe a nós criar um sentido para nossas vidas. Ou seja, pesquisar o sentido da vida é inútil, e estamos perdendo tempo se não nos ocupamos desde já em construir um.
  • Supondo que fomos criados por Deus para realizar uma missão específica. Por exemplo, preparar o mundo para seres mais avançados, criando tecnologias que deem a eles conforto. Ou que somos uma experiência, para testar certos parâmetros de um modelo físico-matemático rumo à criação de uma raça mais perfeita. Isso significa para nós que este é sentido da nossa vida? Provavelmente não. Pois temos uma consciência que transcende eventuais missões mais simples, e não nos sentiríamos plenos se ficássemos apenas confinados a elas. Assim como se criássemos um robô tão complexo quanto nós mesmos para ser nosso escravo, ele não sentiria que esta é sua grande missão. Talvez esta questão recaia na anterior, e cada um teria que criar um sentido para si.

O que fazer então?

Certamente não ficar esperando de braços cruzados alguém solucionar a grande questão. Até porque a probabilidade de que se chegue a uma resposta enquanto vivermos é muito baixa. Resta-nos fazer algo que seja útil considerando os principais sentidos da vida possíveis. Certamente ao buscar intensamente o conhecimento (científico, moral, filosófico, artístico, de si mesmo, ...), e colaborar para que os outros também o busquem, não estaremos desperdiçando nosso tempo.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Para onde estamos indo?

Temos tantas atividades simultâneas, profissionais, acadêmicas, de diversão, meio que aleatoriamente escolhidas e sem grande interconexão entre si, pois não sabemos o objetivo de nossa vida. A procastinação, ausência de planejamento e falta de sentido faz com que estejamos sempre atrasados. Solução: tomar o remédio Omeprazol, para revestir o estômago atingido pelo stress.

O normal da sociedade parece ser usar o tempo livre com diversão. Por não termos encontrado o motivo de nossas vidas, não conseguimos nos encaixar neste padrão, sendo que o vício em entretenimento parece não trazer a mesma felicidade que traz para os outros. Solução: mesmo sem ter uma doença clínica, tomar Prozac ou Zoloft.

O dentista avisa que temos bruxismo, comportamento tipicamente causado por ansiedade com a vida, por insegurança com nossas escolhas, por falta de serenidade. Solução: confeccionar uma placa dentária anti-bruxismo.

domingo, 1 de abril de 2012

Entretenimento = Distrações = Obstáculo a Desviar

por Alberto Ronconi


Este blog é repetitivo às vezes. Assim como o excelente Study Hacks foca bastante na "prática deliberada" e o inspirador zenhabits insiste nos hábitos saudáveis, aqui nós falamos bastante sobre evitar distrações.

Um livro que tenta trazer o estoicismo para o presente mostra que já se tentava evitar distrações há 2000 anos atrás. Outra postagem muito interessante em um blog sobre vida simples mostra como o entretenimento é nocivo.

Essas ideias se assemelham a algumas que apresentamos aqui com frequência.

Mas o que é esse entretenimento, tão pernicioso para o aprimoramento da vida? Podem ser os hobbies, os passatempos que se leva a sério. Mas também pode ser a busca aleatória por pequenas doses de diversão, como assistir a um programa de comédia, ou ficar completamente bêbado com os amigos para rir da situação deles. Pode ser ler infinitamente romances parecidos e previsíveis, ou então uma dedicação incansável ao noticiário. São coisas que viciam, e nunca nos satisfazem completamente (um seriado costuma terminar em clima de suspense, para fazer o gancho com a próxima temporada). E além de viciar nos impedem de fazer uma programação sistemática de como utilizar bem nosso tempo.

Tudo isso nos desvia do nosso verdadeiro objetivo. Não sei exatamente qual é ele, mas não penso que seja perder tempo em coisas que nós mesmos não achamos importantes, e com as quais de certa forma sabemos que não estamos aproveitando a vida de forma útil.

terça-feira, 13 de março de 2012

O benefício de ter metas gerais, mas não expectativas exatas

por Alberto Ronconi


Para que servem as expectativas? Quando as criamos, sentimos uma espécie de felicidade antecipada que, projetada pela imaginação, é proporcional à sensação que seria experimentada quando nosso objetivo fosse atingido.

Mas quando estamos ansiosos por algo, o tempo parece demorar a passar. E para compensar, nossas expectativas vão ficando mais e mais elevadas, para que continuemos a sentir o gostinho do vislumbre da felicidade. Quando eventualmente chegamos aonde queríamos inicialmente, já parece pouco para os sonhos que cresceram exponencialmente com o tempo.

Muito pior é quando as coisas não saem exatamente do jeito que imaginamos, algo tão comum no mundo real (até se poderia dizer que é assim na maioria das vezes).

Quando temos expectativas, nos flagramos sempre torcendo para que elas se realizem, o que certamente tem alguma semelhança com o stress. Por isso é possível ser mais feliz sem elas. Algo na linha do "o que não tem solução, solucionado está", que embora pareça batido pode aliviar pesada carga de nossos ombros.

Até o fim do mês quero ter emagrecido x quilos, lido y páginas do meu livro, organizado tal gaveta de coisas esquecidas, me aperfeiçoado em tal técnica. Tudo isso pode ser altamente frustrante se, por motivos alheios à nossa vontade*, além de não atingirmos o objetivos ficamos muito longe deles, muitas vezes sequer começando.

*Vale lembrar que esses motivos alheios à nossas vontade aparecem tanto mais quanto mais rígido for o planejamento.

Mas não podemos simplesmente eliminar algo que funciona mal e não deixar nada no lugar.

Temos que ter metas de longo prazo, plausíveis, factíveis, que sentimos ser absolutamente importantes. Elas servirão para balizar o uso do nosso tempo livre, que é nossa verdadeira vida.

Por exemplo: emagrecer todos os meses, não vem ao caso quanto. Arrumar gavetas um mínimo que seja, mas que amanhã esteja melhor que hoje. Se nos últimos 20 anos não fizemos nada e só deixamos a situação piorar, se hoje poderíamos ser gênios se tivéssemos agido certo desde o começo, não importa mais. O que importa é começar a melhorar a partir de agora (não amanhã), sem focar na quantidade exata.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Gostamos de resolver problemas

por Alberto Ronconi


Por que quando temos todas as condições favoráveis, como comida infinita, moradia, segurança e estabilidade, uma das coisas que mais nos dá prazer é resolver problemas?

Muitos cientistas são movidos a isso. A física, a engenharia, a matemática, dentre tantas outras ciências, devem boa parte de sua evolução a essa característica do ser humano.

Nem importa tanto o impacto real que a solução do problema terá no dia a dia das pessoas, mas só o fato de se pensar durante um longo período sobre um assunto complexo e chegar a uma solução que antes não existia para nós e na qual tudo se encaixa já é grande fonte de prazer.

Será que os problemas são só um combustível que nos move, e reagimos a ele da mesma forma que o dependente em relação ao vício? Será que somos usados por essa satisfação que temos, unicamente para propagar nossos genes?

Há validade em criarmos problemas artificiais, apenas para experimentarmos o prazer de resolvê-los? Parece que sim, pois os jogos de videogame (especialmente quando se joga sozinho) se encaixam perfeitamente. Bem como os quebra-cabeças, palavras cruzadas, etc. Também deve ser por isso que quem é rico busca ainda mais riqueza, pois a criação e evolução de empresas representam complexos e intrincados problemas a serem resolvidos.

A questão que fica é: faz sentido resolver problemas como fim da existência, e não como meio para descobrir um eventual verdadeiro fim?

O sentido na base da pirâmide de Maslow

por Alberto Ronconi


Como seria fácil se eu soubesse que o sentido da vida é fazer algum grande sacrifício, como por exemplo cruzar o país a pé, ou passar anos comendo alpiste, ou a privação de momentos de diversão.

Bastaria realizar essa intensa provação para ter a sensação de ter vivido uma vida completa, com significado, no limite das possibilidades. Haveria grande motivação para suportar o sacrifício, pois sempre se poderia mirar no objetivo final, que é realizar a missão de uma vida, justificar os sofrimentos do mundo.

Mas os que passam por estas experiências com a finalidade de darem uma razão para sua existência parecem não receber muito em troca, podendo acabar em desvantagem em relação a quem não perseguiu a dificuldade como modo de vida.

Posso querer cruzar o deserto, ou as geleiras, ou viver numa caverna, passando pelas maiores privações e condições insalubres, que terei perdido tempo, mas não terei só por isso obtido a ansiada autorrealização.