domingo, 3 de fevereiro de 2019

Ideias aleatórias


O meta é enfadonho?

Músicas sobre música
Poesias sobre poesia
Histórias sobre escrever, escritores ou bloqueio criativo

Filosofia sobre os limites da filosofia
Arte nonsense para redefinir o que é arte
Matemática pura

Você vai no curso de línguas
Para aprender a história e origens dos radicais
Ou para aprender a falar?

Não há mais beleza na abstração?
Uma poesia abstraindo que se trata de uma poesia
Uma arte que você acha bela sem precisar ficar lembrando que é arte
Um curso de línguas em que você não se sente em um curso de línguas



Ideias aleatórias

As crianças não sabem quase nada
E por isso acham que sabem tudo

Os adolescentes aprendem algumas coisas
E aí sim acham que sabem tudo

Os velhos sabem muita coisa
E por isso acham que não sabem nada



Como ser aclamado pela crítica

É só contar uma história
Sobre pessoas vividas, experientes, respeitadas
Que no fim percebem não ter aprendido nada
Aprendido que a ignorância da sabedoria é quase igual à ignorância da juventude
Com a desvantagem de você não poder voltar atrás porque já sabe o final

sábado, 19 de janeiro de 2019

Geral vs. particular


Técnico: percebo um encadeamento sequencial dos esforços que fiz na vida. Primeiro aprendi a falar. Isso me possibilitou aprender a ler. Em seguida, mergulhei nos livros do assunto que descobri gostar, então fui para a faculdade, em um curso nesta linha. Depois, nisto vivi experiências práticas no trabalho; continuo lendo para conhecer novas ideias, participo de eventos com pessoas da mesma área que vêm de todos os lugares, onde cada um discute sua perspectiva e mostra os avanços que fez. Desta forma, tenho décadas de experiência em um tema e posso dar uma contribuição concreta para a humanidade, apresentar algo de novo que vai beneficiar a vida das pessoas, ao mesmo tempo que tudo servirá de base para os que virão avançar depois de mim

Filósofo: já eu também aprendi a falar e ler. Na escola, tinha algum interesse por todos os assuntos, mas não conseguia escolher nenhum como preferido. Na faculdade, naturalmente fiz um curso específico, mas, ao contrário de alguns colegas, não conseguia me desligar das outras possibilidades do mundo. Hoje, trabalho em uma área diferente daquela que estudei. Percebo que alguns colegas se dedicam profundamente a algum tema ligado à carreira, que pode levá-los a ser muito disputados. Já eu, sempre que posso, acabo lendo sobre assuntos de interesse pessoal que não têm contribuição direta na minha produtividade, de forma que não sinto estar investindo para lapidar alguma habilidade específica.

Técnico: eu já tive alguma tendência a isso também. Mas logo percebi que não me sentia confortável em um mundo diferente do meu. Primeiro, cada grupo tem seus jargões, seus métodos específicos. Seria um esforço hercúleo tentar dominar profundamente uma matéria que não conheço. Depois, o tempo que eu dedicaria em outra área não seria aproveitado para alavancar meus conhecimentos no meu campo. É quase como a teoria econômica: investindo naquilo que já sei me torno ainda mais único, como se fossem juros sobre juros, e investindo em algo que não domino, teria apenas um pouco de conhecimento geral a mais, não me diferenciando da massa.

Filósofo: percebo isso, e tenho consciência de que nunca chegarei a ser um às em nenhuma matéria, nunca ganharei milhões por deter algum conhecimento raro e cobiçado. Entretanto, não posso negar que me dá prazer conhecer o básico de cada coisa. É quase como a sensação de satisfação que temos ao acalmar alguma coceira no corpo. Quando começo a ir muito fundo em um assunto, sinto-me puxado para aqueles temas que abandonei, como se o mundo estivesse acontecendo lá fora e eu preso em um mesmo lugar. Tudo me puxa ao mesmo tempo, noto até ansiedade ao não poder abarcar as várias possibilidades concomitantemente.

Técnico: já o meu prazer vem de eu ser considerado raro, de tudo aquilo que construí pacientemente me colocar num lugar privilegiado, inacessível para maioria das pessoas. A satisfação de que me privei ao não conhecer várias coisas é compensada pela sensação de haver montado um castelo que não pode ser alcançado pelos concorrentes, já que estou alguns anos à frente da maioria deles.

Filósofo: percebo que há mistérios profundos que você domina e eu jamais teria a pretensão de conhecer. Da mesma forma, existem mistérios simples, dos mais variados tipos, dos quais posso dizer que tenho um conhecimento razoável, mas que não enxergaria se tivesse me dedicado a um único tema. Realmente não consigo me imaginar sem ter essa visão geral das coisas, que muitas vezes parecem se conectar e dar origem a uma compreensão integrada do mundo, ainda que certamente eu ignore dimensões inteiras.

Técnico: para mim é natural me concentrar longamente em um único problema; sinto o que dizem ser o "fluxo", e as horas passam sem eu o perceber. Também não ignoro a sensação boa que surge quando faço um avanço.

Filósofo: já eu às vezes me pergunto se não tenho algum déficit de atenção, pois sempre que me atenho a um assunto por mais que certo tempo, já sinto a necessidade de mudar de ares. Mas, também acho que posso contribuir com o mundo, se conseguir me dedicar a um projeto por tempo suficiente para produzir algo inspirador, ou que ajude as pessoas comuns a, de maneira leve, enxergar as coisas de modo mais conectado e abrangente...

Técnico: muitos acham que tenho uma vida invejável, que fiz tudo como deveria ser feito. Sem dúvida estou em uma posição respeitável. Também não posso reclamar financeiramente, pois sempre haverá alguma demanda pelo que posso oferecer.

Filósofo: como não ultrapasso o nível intermediário em qualquer assunto, percebo que sempre há alguém que sabe mais que eu. Desta forma, acabo não dando a palavra final nos debates, já que alguém com conhecimentos mais completos sempre tem alguma coisa mais a oferecer. Também no trabalho não me encontro em vantagem competitiva, uma vez que aquilo que sei fazer muitos também o fazem da mesma forma. Mesmo assim, buscar conhecer todos os aspectos do mundo, para tentar ligá-los, e com isso conseguir pensar sobre as grandes questões humanas, é algo de que não consigo abrir mão. Saciar a minha sede acaba sendo o meu trabalho, meu energético e minha recompensa..

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Especulação teórica sobre como nos comportar

Como ter a tranquilidade de um aposentado (que idealmente tem um fluxo de receitas e despesas sustentável até o infinito e não precisa ficar pensando no assunto) desde já?


Premissas

1) trabalhamos para sobreviver e guardar dinheiro para a nos aposentar (ou seja, não precisar mais trabalhar)

2) enquanto guardamos dinheiro, temos a tendência de ter preocupações financeiras (o dinheiro que estamos guardando precisa render mais e precisamos guardar mais)

3) na aposentadoria, precisamos ter dinheiro suficiente apenas para uma vida simples, mas tranquila (ou seja, sem preocupações financeiras quanto a guardar ou fazer o dinheiro render)

4) se começarmos a ter uma vida tranquila (sem preocupações financeiras) apenas na velhice, não conseguiremos aproveitar tanto como se começássemos agora

5) o trabalho faz parte do homem, ou seja, trabalhar traz sentido à vida

6) na aposentadoria, poderíamos dedicar a energia do trabalho para algo livre (analisar os fundamentos das principais empresas da bolsa e publicar as informações na internet, aprender econometria, aprender a fazer discursos)


Consequências

1) se pararmos de trabalhar agora, teremos dinheiro suficiente para a aposentadoria e aproveitaremos mais a vida (premissa 4), mas não teremos o prazer que o trabalho traz enquanto sentido (premissa 5)

2) se trabalharmos até a velhice, teremos bem mais dinheiro que o suficiente para a aposentadoria, e teremos o prazer que o trabalho traz enquanto sentido (premissa 5), mas não poderemos aproveitar tanto a vida (premissa 4)

3) se pararmos de trabalhar agora e, para termos o prazer que o trabalho traz enquanto sentido (premissa 5), trabalharmos com algo livre (premissa 6), estaríamos fazendo algo análogo ao que poderíamos ter feito sem parar de trabalhar, mas ganhando menos dinheiro

4) a maneira de, ao mesmo tempo, aproveitar mais a vida (premissa 4) e ter o prazer que o trabalho traz enquanto sentido (premissa 5), é continuar trabalhando sem se afetar pelo fato de que o dinheiro precisa render mais e precisamos guardar mais, até porque, como continuaremos trabalhando, mesmo que o dinheiro não renda muito e mesmo que não guardemos tanto, teremos o o suficiente para a aposentadoria na velhice

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Referência circular



Trabalho para poder comer bem
Como bem para conseguir trabalhar melhor

Trabalho bastante para poder dormir com conforto
Dormir um bom sono me ajuda a trabalhar bastante

Trabalho para poder comprar roupas boas
Compro roupas boas para usar no trabalho

Trabalho para poder descansar no domingo
Descanso no domingo para render mais na semana

Dizem que o homem, ser social, precisa do convívio com os demais
Pois é no trabalho que tenho os amigos do dia a dia

O homem também deve se divertir
Para isso existem as risadas sobre colegas e a chefia

O trabalhador trabalha para viver
E vive para trabalhar?

Pode parecer referência circular
Mas quem sabe é uma identidade...
E o homem não trabalha, mas é trabalho

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Ciência é o que você sabe, filosofia é o que você não sabe

O título deste texto é uma frase de Bertrand Russell. Vamos nos basear nela para descrever uma ideia.

Iniciemos com a filosofia da mente. É uma área de estudo com registros desde a Grécia Antiga, pois as pessoas de todas as épocas querem saber como a mente funciona. Não necessariamente a parte técnica da neurofisiologia, mas o conceito mais amplo do que nos move, de quem somos nós, de qual a fonte do nosso livre-arbítrio. Por exemplo, Platão tinha a ideia dualista de que a inteligência humana (uma faculdade da mente ou alma) não pode ser identificada com o corpo físico, nem explicada a partir dele. Dois mil anos depois, Descartes também expressou pensamentos dualistas, identificando a mente com a consciência e diferenciando-a do cérebro, e formulando o problema mente-corpo numa forma que é usada até hoje.

O conhecimento da mente humana estava quase inteiramente no campo da filosofia. Embora seja possível que cada um observe a mente dos demais e que, por introspecção, explore a própria mente, as teorias propostas a partir destes métodos ainda não estão no campo da ciência.

Conforme a tecnologia avança, é possível realizar estudos mais complexos sobre a mente humana, como procurar correlação entre estados neuronais e sensações ou pensamentos. Desta forma, o que antes era puramente filosofia (com muitas possibilidades mas nenhuma certeza) vai aos poucos se transformando em ciência (quando as possibilidades vão sendo refutadas e resta algo cada vez mais próximo da certeza).

O problema é que ainda estamos muito longe de desvendar os problemas fundamentais, como por exemplo o problema difícil da consciência. Mesmo com toda a neuroimagem disponível, ainda só conseguimos explorar as estratégias que a mente usa para resolver problemas, mas não como surgem as sensações, ou qual a origem do livre arbítrio. Essa parte ainda é praticamente toda filosofia aguardando ser convertida em ciência.

Mas os cientistas de hoje têm a percepção de que a solução para os problemas mais fundamentais não deve vir nem nas próximas décadas. Ou seja, a atual geração estaria privada para sempre da resposta às questões mais intrigantes sobre a mente. Por isso, ainda bem que existe a filosofia, para que possamos ao menos especular sobre as possíveis soluções.

Com a filosofia é possível organizar todas as hipóteses que forem sendo sugeridas, ao mesmo tempo que cada pensador pode desenvolver com mais detalhe as teorias iniciadas no passado. Desta forma, embora não tenhamos a sonhada resposta, pelo menos podemos imaginar que ela está escondida no meio da vastidão das teorias disponíveis, e pensar nas consequências de cada uma delas para a nossa percepção da realidade. Se dependêssemos inteiramente da ciência, durante milênios estaríamos totalmente às escuras.

O lado negativo de filosofar é que podemos estar completamente equivocados, e que incontáveis teses de doutorado podem estar sendo escritas com base em vento.

Talvez uma das razões que nos levam a ser curiosos em relação à meditação também seja essa. É a nossa chance de conhecer um pouco mais sobre nossa mente, ainda que de forma um pouco nebulosa e ainda que haja o risco de tomarmos caminhos errados. Pessoas com milhares de horas dedicadas à meditação conhecem sensações novas para o restante da humanidade, e podem eventualmente criar teorias sobre a realidade do mundo a partir delas.

Não deixa de ser um trade-off interessante: a filosofia nos dá respostas já, mas as verdades estão escondidas em um oceano de ilusões. A ciência não nos dá muita coisa no curto prazo, mas no longo prazo faz com que o oceano seja a verdade e que as ilusões sejam as pequenas ilhas.

Entretanto, provavelmente esta conclusão (e o título do texto) não vale para áreas da filosofia como a ética, que não estão no campo de interesse da ciência objetiva.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

O sentido da vida no humanismo, segundo Y. Harari

Trecho do Livro Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã, capítulo 7


À medida que os humanos adquiriam confiança em si mesmos, uma nova fórmula para alcançar um conhecimento ético se revelava: Conhecimento = Experiências x Sensibilidade. Se quisermos ter a resposta a qualquer questão ética, precisamos nos conectar com nossas experiências interiores e observá-las com a máxima sensibilidade. Na prática, isso significa que estamos em busca de conhecimento quando passamos anos reunindo experiências e aguçando nossa sensibilidade de modo a compreender corretamente essas experiências. (...) Devo estar aberto a novas experiências e permitir que elas mudem minhas opiniões, meu comportamento e até mesmo minha personalidade.

Experiências e sensibilidade se incrementam reciprocamente num ciclo interminável. Não sou capaz de experimentar nada se não tiver sensibilidade, e não sou capaz de desenvolver sensibilidade a menos que passe por uma variedade de experiências. A sensibilidade não é uma aptidão abstrata que eu possa desenvolver lendo livros ou ouvindo palestras. É uma aptidão prática que só pode amadurecer e se consolidar quando aplicada na prática.

Tomemos, por exemplo, o chá. Começo tomando um chá comum muito doce, enquanto leio o jornal matutino. O chá não é muito mais do que um pretexto para me dopar com açúcar. Um dia eu me dou conta de que, entre o açúcar e o jornal, quase não sinto o gosto do chá. Então, reduzo a quantidade de açúcar, ponho o jornal de lado, fecho os olhos e me concentro no chá. Começo a perceber seu aroma e paladar únicos. Logo me vejo fazendo experiências com diferentes tipos de chá, pretos e verdes, comparando seus sabores deliciosos e os delicados buquês. Em poucos meses, abandono os rótulos de supermercado e compro meu chá no Harrods. Desenvolvo um gosto especial pelo "chá Esterco de Panda" das montanhas de Ya'an, na província de Sichuan, feito com as folhas de arbustos de chá que foram fertilizados com o esterco de pandas. É assim que, uma xícara de cada vez, eu aprimoro minha sensibilidade ao chá e me torno um conhecedor. Se, nos meus primeiros tempos de tomador de chá, você me servisse um chá Esterco de Panda numa taça de porcelana da dinastia Ming, eu não o apreciaria mais do que aprecio um chá comum num copo de papelão. Não se pode realmente experimentar algo se não se tem a sensibilidade necessária, e não se pode desenvolver a sensibilidade a não ser passando por uma longa sequência de experiências.

O que vale para o chá vale para outros conhecimentos éticos e estéticos. Não nascemos com uma consciência sob medida e pronta para ser usada. No decurso de nossa vida, magoamos pessoas e pessoas nos magoam, agimos compassivamente e outros demonstram compaixão para conosco. Se prestarmos atenção, nossa sensibilidade moral se aguçará, e essas experiências podem se tornar uma fonte de valioso conhecimento ético sobre o que é bom, sobre o que é correto e sobre quem realmente eu sou.

Assim, o humanismo vê a vida como um processo gradual de mudança interior, que parte da ignorância e chega à iluminação por meio de experiências. O mais alto objetivo de uma vida humanística é desenvolver completamente seu conhecimento mediante uma grande variedade de experiências intelectuais, emocionais e físicas. No início do século XIX, Wilhelm von Humboldt - um dos principais arquitetos da educação moderna - disse que o objetivo da existência é a "destilação da mais ampla experiência de vida possível para formar sabedoria". Ele escreveu também que "só existe um ponto culminante na vida - ter tomado as providências necessárias para sentir tudo o que é humano". Este bem poderia ser o lema do humanismo.

sábado, 25 de novembro de 2017

Alguns conceitos do livro Antifrágil

Não se trata de um livro resumindo conhecimentos adquiridos pela ciência ao longo dos anos, como vários outros de divulgação científica, mas sim um texto opinativo apresentando uma teoria própria, que muitas vezes vai contra conceitos considerados mainstream. Talvez o autor queira correr o risco de errar em algumas ideias para ter grandes acertos em outras. O problema é saber onde ele está errado ou certo.


1) Barbell strategy

Barbell significa algo como halteres (barra com um conjunto de pesos em cada extremidade). Em muitas oportunidades podemos usar estratégia análoga: concentrar esforços em dois pontos opostos das possibilidades. Por exemplo, em investimentos, escolher parte extremamente segura (robusta a eventos extremos) e parte de alto risco. Assim, evitamos agrupar todos os nossos recursos na parte do meio, que tem risco baixo mas ainda está sujeita a eventos "cisne negro". Esta estratégia pode ser utilizada também na alimentação, nos exercícios físicos, na nossa lista de leituras, no uso do tempo (trabalho duro e puro ócio; ou pura ação em uma fase e pura reflexão em outra posterior), etc. A vantagem em todos os casos é que teríamos a garantia de um retorno mínimo, e ao mesmo tempo a possibilidade de um retorno elevado.


2) Green lumber fallacy

Um das pessoas com o maior sucesso na negociação de derivativos atrelados à commodity "madeira verde" admitiu, depois de ano de operação, que achava estar negociando madeira pintada de verde. Mas na verdade madeira verde significa madeira recém cortada. Enquanto isso, muitos traders que visitavam plantações, consultavam a previsão do tempo e estudavam a influência na colheita não tinham o mesmo sucesso. Isso significa que ser especialista no conceito do produto não é a mesma coisa que ser especialista em negociá-lo.


3) Opcionalidade

É aquilo que torna algo antifrágil. Quando uma pessoa tem opção de fazer duas coisas, ela está em grande vantagem, pois ao longo do tempo as coisas podem mudar e ela pode exercer uma ou outra opção. Eventualmente uma opção pode passar a ser muito mais vantajosa que outra. Os eventos aleatórios beneficiam quem tem opções. As opções financeiras são precificadas, mas muitas vezes temos opções gratuitas em outros campos, e quem usa esse fato em sua vantagem pode obter grandes benefícios. Muitas pessoas em importantes posições acreditam intuitivamente na linearidade, mas o mundo é não linear, e pequenas variações podem trazer grandes consequências.


4) O frágil, o antifrágil e o robusto

Frágil é aquilo que funciona em certas condições, mas pode quebrar se houver mudança no ambiente. Antifrágil é aquilo que pode eventualmente se beneficiar de mudanças no ambiente, pois tem opcionalidade. Robusto é aquilo que não liga para mudanças no ambiente. (Se uma função é convexa, ou antifrágil, então a média da função de algo será maior que a função da média desse algo. E o contrário ocorre quando a função é convexa, ou frágil.)


5) Turkey problem

Um peru economista poderia analisar três anos de sua vida de engorda, e extrapolar sua série histórica para um futuro semelhante. Afinal ele sempre recebeu comida e nunca foi abatido. Mas esta análise não levaria em conta que existem efeitos raros que não estão disponíveis como informação passada. Qualquer extrapolação falharia.


6) Excesso de informação

Nos dados existe informação e ruído. Quando consultamos dados anuais, digamos que exista metade informação e metade ruído. Mas se temos acesso a dados diários, como acontece em muitas ocasiões, teríamos acesso a pouca informação e muito ruído. E nas cotações da bolsa de valores, com dados horários ou a cada minuto, praticamente tudo é ruído, e ao acompanhar em um prazo tão curto perdemos qualquer noção de informação.


7) Nontransferability of skills

Existe o lúdico, como os jogos de xadrez, em que as regras são bem conhecidas e limitadas. As pessoas com grandes habilidade no xadrez não levam vantagem na vida real, onde as regras são difusas e ilimitadas. O que as pessoas aprendem na sala de aula, com os exemplos prontos, ou os testes em que sempre há uma resposta certa aguardando para ser descoberta, não significam sucesso na vida real, onde os problemas são abertos. O sucesso na sala de aula não é transferível para sucesso no mundo dos negócios (ocorre o efeito loss in translation).


8) Tinkering

Talvez possa ser traduzido como "remendo"; é algo feito gradualmente com base na tentativa e erro. Em vez de alguém deduzir teoricamente as leis que regem a vida, é mais efetivo simplesmente tentar pequenas inovações na prática. Isto fez muitas ciências evoluírem, como a medicina e engenharia. A verdadeira ciência está em pessoas sem treinamento formal aperfeiçoarem gradativamente o que já existe, e não em alguma descoberta bombástica feita na universidade. Os negociadores de opções já conheciam na prática, e com muito mais sofisticação, a fórmula de Black-Scholes que veio a ser publicada muitos anos depois. Mais precisamente, existe o "convex tinkering", que são os remendos com consequências não lineares: um remendo pequeno pode eventualmente desembocar numa melhoria grande.


9) Iatrogenia

É o dano causado pelo excesso de intervenção. Por exemplo, na Medicina, podemos ter a tendência de procurar tratamento quando não seria necessário, e este tratamento poderia trazer mais danos que benefícios. Aconteceria também na alimentação saudável: os ingredientes balanceados ingeridos em horários regulares poderiam fazer mal ao corpo, que se beneficiaria de alguma aleatoriedade em quantidades e horários. Mas este conceito poderia ser aplicado em outras áreas, como por exemplo o excesso de intervenção nos investimentos, quando uma mudança frequente de estratégia causaria mais dano que não fazer nada.


10) Scholars e practitioners

Os filósofos muitas vezes discutem o mundo das formas, das ideias, as ontologias. Enquanto isso, o que interessa de verdade para as pessoas são os riscos e recompensas de cada ação.


11) Epifenômeno

Algo que é causado mas não causa nada. O autor especula que pode ser o caso das universidades: elas são causadas pelo enriquecimento da população (que passa a investir em educação com o objetivo de sistematizar o conhecimento para obter mais riqueza), mas podem não causar nada - não trazem efeitos importantes no enriquecimento da sociedade. (As universidades acham que estão ensinando os pássaros a voar, ao dar-lhes aula de aerodinâmica e biologia.)


12) Cherry-picking

É escolher alguma evidência anedótica favorável para defender uma teoria. Em geral as cerejas não são todas bonitas, mas quem vê apenas as cerejas colhidas, pensa que todas são bonitas. Este método pode ser utilizado para explicar o passado, escolhendo apenas as variáveis que corroboram determinada teoria. Quando mais dados existirem, mais fácil será encontrar dados com alta correlação com o que foi previsto, e mais fácil será encontrar explicações de por que o que aconteceu foi diferente da previsão.


13) Conflation problem

Talvez possa ser traduzido por problema da conjugação. Significa confundir o preço do petróleo com geopolítica, ou confundir uma aposta em que se obteve lucro por uma previsão de qualidade - e não convexidade do payoff e opcionalidade.


14) Less is more in decision making (contrary to the method of putting a series of pros and cons side by side on a computer screen)

Se você tem mais de uma razão para fazer algo (escolher um médico, contratar alguém, casar-se ou viajar para algum lugar), não faça isso. Não significa que uma razão é melhor que duas - apenas que, quando se invoca mais de uma razão, a pessoa está tentando convencer a si mesma a fazer algo. Decisões óbvias (robustas ao erro) não precisam de mais que uma única razão.