segunda-feira, 14 de maio de 2012

Como investigar a imortalidade

Já argumentamos anteriormente que o sentido da vida pode estar umbilicalmente conectado com a continuidade ou não da consciência individual após a morte física (mas não necessariamente).

Seria então uma nobilíssima área de pesquisa a investigação dessas possibilidades. Nós leigos não sabemos até que ponto a ciência formal se ocupa da matéria, ou se o tema é levado a sério pelas alas majoritárias.

Fato é que comportar-se de maneira absolutamente cética não permite eventuais avanços. Algumas pessoas podem não negar a priori a importância do tema, mas têm postura agnóstica, no sentido de que seria impossível para as ciências naturais analisar fenômenos de ordem metafísica, pois estes não seriam falseáveis.

Ao contrário, julgamos que ainda não há qualquer certeza sobre a impossibilidade de se chegar a grandes descobertas na área com o uso do método científico. Devido à influência que resultados inesperados teriam no futuro da vida humana, novas investigações são de capital importância.

A principal linha de pesquisa que vislumbramos são as habilidades inexplicáveis supostamente apresentadas por algumas pessoas. Afinal, se por exemplo ficasse comprovado que uma criança fala um idioma com o qual jamais teve qualquer contato, ou que Mozart atingiu feitos impossíveis para um cérebro humano de tenra idade, e fossem encontrados casos semelhantes em número suficiente, a viabilidade de uma explicação metafísica ficaria inconteste.

Na literatura popular de não ficção, há autores tentando defender os mais diversos pontos de vista. Genius Explained quer mostrar que prodígios da humanidade, como Mozart ou Faraday, são produto do meio em que viveram juntamente com uma personalidade propensa a trabalho árduo. Já em A Volta conta-se a história de uma criança com lembranças de vidas passadas, que em tese poderiam ser documentalmente comprovadas - embora fossem necessários inúmeros casos semelhantes para dar credibilidade ao relato.

Fato é que quanto mais atenção os acadêmicos e a opinião pública derem ao assunto, maior é a chance de ou se comprovarem relatos do mundo do espírito ou ficar definitivamente cimentada a origem neurobiológica/ambiental de todos os comportamentos humanos.

Das pesquisas que encontramos até agora, há o site de uma pessoa que, embora se apresente como espírita, tenta pôr à prova os livros psicografados por médiuns brasileiros famosos. Dois dos principais pesquisadores acadêmicos a investigar o assunto são Ian Stevenson (já falecido) e Jim Tucker, sendo que este último criou o SOCS, índice que mediria a plausibilidade de um suposto caso de reencarnação.

domingo, 13 de maio de 2012

Prazo para corrigir defeitos


Quanto tempo temos para corrigir nossas maiores deficiências psicológicas, aquelas que nos acompanham desde criança e que nos impedem de desabrocharmos?

Se há vida após a morte, podemos nos dar ao luxo de trabalhar minuciosamente cada característica negativa, atuando em todas as suas ramificações, de forma a vencê-la definitivamente. Por exemplo, podemos dedicar 10 anos para o egoísmo, 10 para a timidez e 10 para a falta de foco. Assim na outra vida resolveremos os problemas restantes, até que num tempo remoto para a frente estaremos livres para amar, criar e compreender o mundo como seres evoluídos.

Se não há vida após a morte, não há tempo a perder. É necessário trabalhar em todas as frentes ao mesmo tempo, minimizando a influência das deficiências de forma expressa e pragmática. O importante seria amar, criar e compreender o mundo desde já, com as ferramentas que temos, ainda que de forma incompleta. Feliz daquele que conseguir, aos trancos e barrancos, mesmo com a ajuda de macetes e atalhos, avançar o máximo possível no tempo que possui.

Não é possível deixar de registrar uma possibilidade muito interessante. Vai que viveremos após a morte, mas as coisas fora feitas para não termos consciência de tal fato, de forma a buscarmos aproveitar todo o tempo possível em prol do próprio aperfeiçoamento, sem as costumeiras postergações típicas do tempo de sobra?

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Citações - Parte 2

É sempre melhor ser otimista do que ser pessimista. Até que tudo dê errado, o otimista sofreu menos.

A preguiça é a mãe das invenções.

Porque é bela a arte? Porque é inútil - Fernando Pessoa

Todos querem ir para o céu, mas ninguém quer morrer.

Você possui apenas aquilo que não perderá com a morte; tudo o mais é ilusão.

A vida não consiste em ter boas cartas na mão, e sim em jogar bem as que se tem - Josh Billings

No final, estas coisas são as que mais importam: com que dedicação amou? Quão plenamente amou? Quão profundamente aprendeu a se desprender? - Buda

Os milagres não acontecem em contradição com a natureza, mas só em contradição com o que sabemos da natureza.

Democracia é oportunizar a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um - Fernando Sabino

Não corrigir nossas faltas é o mesmo que cometer novos erros - Confúcio

Dificilmente encontramos pessoas de bom senso a não ser aqueles que concordam conosco - La Rochefoucauld

Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo - Luis Fernando Veríssimo

O mal de quase todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica - Norman Vincent

Se sabemos exatamente aquilo que vamos fazer, para quê fazê-lo? - Pablo Picasso

Não devemos ler escritos sobre a matéria acerca da qual estamos refletindo, do contrário atamos o gênio - Kant

A coisa principal da vida não é o conhecimento, mas o uso que dele se faz - Talmude

Um pouco de conhecimento que age vale infinitamente mais do que conhecimento que é ocioso - Kahlil Gibran

Se choras porque não consegues ver o sol, as tuas lágrimas impedir-te-ão de ver as estrelas - Tagore

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinhos, outras há que sorriem por saber que os espinhos têm rosas.

A porta mais bem fechada é aquela que pode ser deixada aberta.

Evitar a felicidade com medo que ela acabe é o melhor meio de ser infeliz.

Se à primeira vista a ideia não for absurda, então não há esperança para ela - Albert Einstein

Nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons - Freud

Nada inspira mais coragem ao medroso do que o medo alheio - Umberco Eco

Não existe vento favorável para o marinheiro que não sabe aonde ir - Sêneca

O homem de bem ajuda os outros a atingir o bem. Não ajuda os outros a atingir o vício - Confúcio

Acredito que algumas das maiores mentes que até hoje existiram não tenham lido nem a metade e soubessem consideravelmente menos do que alguns de nossos medíocres acadêmicos - Lichtenberg

Quando duas pessoas se encontram há, na verdade, seis pessoas presentes: cada pessoa como se vê a si mesma, cada pessoa como a outra a vê e cada pessoa como realmente é - William James

Se pudéssemos ler a história secreta de nossos inimigos, encontraríamos na vida de cada homem aflição e sofrimento suficientes para desarmar qualquer hostilidade - Henry Wadsworth Longfellow

Para aquele que dominou a mente ela é o maior dos amigos; mas, para aquele que não conseguiu, é o pior dos inimigos - Bhagavad Gita

Uma diminuição da hipocrisia e um aumento do autoconhecimento só podem resultar numa maior consideração para com o próximo, pois somos facilmente levados a transferir para nossos semelhantes a falta de respeito e a violência que praticamos contra nossa própria natureza - Jung

A felicidade é um estado de satisfação da alma, expressão de harmonia total entre as nossas aspirações e as realidades da vida. E por isso julgo mais simples atingir a felicidade pela renúncia do que pela procura e satisfação de necessidades sempre mais numerosas e intensas - Antonio de Oliveira Salazar

Com respeito ao homem benevolente, ele estabelece para outros situações que deseja para si próprio. Ele conduz a outros para chegar onde ele próprio deseja chegar. A capacidade de se estender de si próprio aos outros pode ser considerado o caminho para a benevolência - Confúcio

Pois o homem que pensa por si mesmo se familiariza com as autoridades por suas opiniões somente depois que as adquiriu e meramente como uma confirmação delas, enquanto o filósofo de livro começa com as suas autoridades, e dessa forma constrói suas opiniões juntando as opiniões dos outros: a sua mente, então, se compara à do primeiro como um autômato se compara a um homem vivo - Arthur Schopenhauer

Conheça ao menos sua incapacidade para crer, já que a razão o leva a isso, e assim você não consegue crer. Trabalhe então para se convencer, não pelo aumento das provas de Deus, mas pela diminuição de suas paixões. Você gostaria de ter fé, e não sabe o caminho; você gostaria de se curar da descrença, e pede uma solução. Aprenda com os que estiveram atados como você, e agora apostam todos os seus bens. São pessoas que conhecem o caminho que você gostaria de seguir, que estão curadas de uma doença da qual você gostaria de se curar. Siga o caminho pelo qual elas começaram; agindo como se acreditassem, tomando água benta, mandando rezar missas, etc. Mesmo isso vai fazer você naturalmente crer, e arrefecer sua perspicácia - Blaise Pascal, Pensamentos, 233

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Trechos de Livros - A Negação da Morte, de Ernest Becker

Maslow (A Negação da Morte, p. 76)
Nossa tendência é temer qualquer conhecimento que possa fazer com que desprezemos a nós mesmos ou com que nos sintamos inferiores, fracos, inúteis, maus, vergonhosos. Nós nos protegemos e protegemos a imagem ideal de nós mesmos por meio da repressão e das defesas semelhantes, que são essencialmente técnicas pelas quais evitamos a consciência de verdades desagradáveis e perigosas.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 80)
Não queremos admitir que somos fundamentalmente desonestos no que se refere à realidade, que não controlamos realmente nossas próprias vidas. Não queremos admitir que não ficamos sozinhos, que sempre nos apoiamos em algo que nos transcende, um certo sistema de ideias e poderes no qual estamos mergulhados e que nos sustenta. Esse poder nem sempre é óbvio: não previsa ser um deus ou uma pessoa mais forte, mas pode ser o poder de uma atividade que exija plena dedicação, uma paixão, a dedicação a um jogo, um modo de vida que, como uma teia confortável, mantém a pessoa apoiada e ignorante a respeito de si própria e ao fato de que ela não se apoia em seu próprio centro. Todos nós somos levados a sobreviver de uma maneira desinteressada, ignorando quais as energias que realmente consumimos e que tipo de mentira criamos a fim de vivermos segura e serenamente.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 161)
Os homens adoram e temem o poder e, por isso, dedicam sua lealdade àqueles que sabem administrá-lo.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 167)
Ao explicar o poder preciso que mantinha os grupos unidos, Freud também pôde mostrar por que os grupos não temem o perigo. Os membros não sentem que estão sozinhos com sua própria insignificância e seu desamparo, já que têm os poderes do líder-herói com quem estão identificados. O narcisismo natural – a sensação de que a pessoa que está ao seu lado vai morrer mas você não – é reforçado pela dependência confiante do poder do líder.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 190)
Vemos agora o que poderíamos chamar de tragédia ontológica ou da criatura, que é tão peculiar ao homem: se ele cede ao Ágape, corre o risco de não se desenvolver, o que é a sua contribuição ativa ao resto da vida. Se expande Eros em demasia, arrisca-se a separar-se da dependência natural, do dever para com uma criação mais ampla afastando-se do poder curativo da gratidão e da humildade que deve sentir naturalmente por ter sido criado, por lhe ter sido concedida a oportunidade de experimentar a vida.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 219)
Quando dizemos que a neurose representa a verdade da vida, uma vez mais queremos dizer que a vida é um problema esmagador para um animal desprovido de instinto. O indivíduo tem que se proteger contra o mundo, e só pode fazê-lo como faria qualquer outro animal: reduzindo o tamanho do mundo, barrando a entrada da experiência, desenvolvendo uma alienação tanto dos terrores do mundo quanto de suas próprias angústias. Caso contrário, ficaria incapacitado para agir. Nunca será demais repetir a grande lição da psicologia freudiana: a de que a repressão é a autoproteção normal, uma auto-restrição criativa – numa acepção verdadeira, o substituto natural do instinto, para o homem. Rank tem um termo-chave perfeito para esse talento natural do homem: ele o chama de “parcialização” e percebe que a vida é impossível sem ela. Aquilo que chamamos de homem bem-ajustado possui exatamente essa capacidade de parcializar o mundo para poder agir de maneira satisfatória. (…) Os homens não são feitos para assimilarem o mundo inteiro; são feitos, como outras criaturas, para assimilar o pedaço de terra que está diante de seus focinhos. Os deuses podem assimilar a totalidade da criação, porque só eles podem entendê-la, saber de que se trata e para que serve. Mas assim que o homem levanta o nariz do chão e começa a farejar problemas eternos, como a vida e a morte, o significado de uma rosa ou um grupo de estrelas – aí ele se complica. A maioria dos homens se poupa dessa complicação, mantendo a mente concentrada nos pequenos problemas de suas vidas, tal como a sociedade em que vivem traça esses problemas para eles. São os que Kierkegaard chamava de homens “imediatos” e de “filisteus”. Eles “se tranquilizam com o trivial” – e assim podem levar suas vidas normais.
Roy Waldman (A Negação da Morte, p. 222)
Deve ficar claro que o desespero e a angústia de que o paciente reclama não são resultado desses sintomas, mas sim a razão para a sua existência. Na verdade, são exatamente esses sintomas que o protegem do tormento das profundas contradições que estão no cerne da existência humana. Uma determinada fobia ou obsessão é justamente o meio pelo qual o homem alivia o peso das tarefas de sua vida, e consegue minorar a sua sensação de insignificância. Assim, os sintomas neuróticos servem para reduzir e estreitar – para, num passe de mágica, transformar o mundo de maneira que o paciente possa ter a atenção desviada de suas preocupações com a morte, a culpa e a insignificância. O neurótico preocupado com o seu sintoma é levado a acreditar que a sua tarefa principal é enfrentar essa determinada obsessão ou fobia. Em certo sentido, sua neurose lhe permite assumir o controle de seu destino – transformar todo o significado da vida num significado simplificado, originários do seu mundo peculiar.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 228)
Houve uma época em que eu ficava imaginando como é que as pessoas aguentavam trabalhar em torno daqueles infernais fogões em cozinhas de hotéis, a loucura do escritório de um agente de viagens no auge da temporada de turismo, ou a tortura de trabalhar o dia inteiro na rua com uma perfuratriz automática, num verão calorento. A resposta é tão simples, que nem a percebemos: a loucura dessas atividades é exatamente a da condição humana. Elas estão “certas” para nós, porque a alternativa é o desespero natural. A loucura diária desses empregos é uma repetida vacina contra a loucura do hospício. Veja a alegria e a disposição com que os trabalhadores voltam das férias para suas rotinas compulsivas. Mergulham no seu trabalho com tranquilidade e alegria, porque o trabalho abafa algo mais sinistro.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 243)
Além de um determinado ponto, o que ajuda o homem não é um “saber” mais, mas um viver e um fazer, de uma maneira que o faça esquecer parcialmente de si mesmo. Como disse Goethe, temos de mergulhar na experiência e, então, refletir sobre o significado dela. Só a reflexão, sem mergulho, nos leva à loucura; só o mergulho, sem reflexão, nos torna brutos.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 245)
Não há ninguém mais lógico do que o lunático, ninguém mais preocupado com as minúcias de causa e efeito. Os loucos são os maiores argumentadores que conhecemos, e essa peculiaridade é uma das companheiras de sua ruína. Todos os seus processos vitais se retraíram para dentro da mente. Qual é a única coisa que lhes falta e que os homens equilibrados possuem? A capacidade de serem descuidados, de não ligarem para as aparências, de se descontraírem e de rirem do mundo.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 300)
Erich Fromm já havia descrito bem o masoquismo como uma tentativa de se livrar do ônus da liberdade. Do ponto de vista clínico, verificamos que há pessoas tão fracas diante da responsabilidade que chegam até a ter medo da liberdade proporcionada por um bom estado de saúde e vigor. Na mais extrema das perversões, a necrofilia, vemos o mais extremo medo da vida e das pessoas. Um dos pacientes de Brill tinha tanto medo de cadáveres, que quando venceu esse medo tornou-se necrófilo, porque ficara fascinado pela liberadade que acabara de conquistar.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 302)
Podemos ver como são realmente inseparáveis os domínios da psiquiatria e da religião, já que ambas lidam com a natureza humana e com o significado máximo da vida. Deixar a estupidez para trás é tornar-se ciente da vida como um problema de atos heróicos, o que inevitavelmente se torna uma reflexão sobre o que deveria ser a vida em suas dimensões ideais. Com base nesse ponto de vista, podemos ver que as perversões das “religiões particulares” não são “falsas” em comparação com as “religiões verdadeiras”. São simplesmente menos expansivas, menos humanamente nobres e responsáveis. Todos os organismos vivos estão condenados à perversidade, à estreiteza de serem meros fragmentos de uma totalidade maior que os assoberba, que eles não conseguem compreender ou enfrentar de veradade – e no entanto ainda têm que viver e lutar nessa totalidade. Ainda devemos perguntar, então, à feição do sábio velho Epicteto, que tipo de perversão é adequada ao homem.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 308)
Kierkegaard tinha uma fórmula própria para o que significa ser um homem. Ele a expôs naquelas páginas admiráveis nas quais descreve o que chama de “o cavaleiro da fé”. Essa figura é o homem que vive na fé, que entregou o significado da vida ao seu Criador e que vive concentrado nas energias do seu Deus. Aceita sem reclamar o que quer que aconteça nessa dimensão visível, vive a vida como um dever, enfrenta a morte sem receio. Nenhuma ninharia é tão insignificante a ponto de ameaçar seus significados. Tarefa nenhuma é amedrontadora demais para estar acima de sua coragem. Ele se encontra plenamente no mundo segundo as condições impostas por esse mundo, e totalmente fora do mundo na sua confiança na dimensão invisível.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 308)
Como disse Kierkegaard, a fé é o que há de mais difícil: ele se coloca entre a crença e a fé, incapaz de dar o salto. Afinal, o salto não depende do homem – e aí é que está a dificuldade: fé é uma questão de graça.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 310)
Cada indivíduo resume toda uma gama de experiências muito pessoais, de modo que a sua vida constitui um problema muito característico que precisa de tipos de soluções muito individuais.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 316)
O ponto essencial da argumentação de Rieff é o clássico: para ter-se uma existência verdadeiramente humana, deve haver limites; e aquilo que chamamos de cultura ou de superego fixa esses limites. A cultura é uma solução conciliatória com a vida que torna possível a vida humana. Ele cita a desafiadora frase revolucionária de Marx: “Eu nada sou e deveria ser tudo.” Para Rieff, isso é o puro inconsciente infantil falando – ou, como eu preferiria dizer junto com Rank, a consciência neurótica: o “tudo ou nada” da pessoa que não consegue “parcializar” o seu mundo.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 320), Ars longa, vita brevis
Uma pessoa leva anos para formar sua individualidade, desenvolver seu talento, seus dons ímpares, aperfeiçoar suas discriminações com relação ao mundo, ampliar e aguçar o apetite, aprender a suportar as desilusões da vida, amadurecer, tornar-se moderada – enfim, uma criatura ímpar na natureza, situando-se com certa dignidade e nobreza e transcendendo a condição animal; não mais movida só por impulsos, não mais puro reflexo, não estampada por nenhum molde. E aí vem a verdadeira tragédia: são necessários sessenta anos de incríveis sofrimentos e esforços para formar um indivíduo desses, e aí ele só serve para morrer. Esse doloroso paradoxo a pessoa não o ignora, de modo algum. Ela se sente dolorosamente um ser especial, mas sabe que isso não faz diferença alguma no que se refere a coisas definitivas.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 324)
A religião é uma experiência, e não apenas um conjunto de conceitos intelectuais sobre os quais se deva meditar; ela tem que ser vivida.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O que está por trás do "sentido da vida"

Querer saber qual o sentido da vida pode ser equivalente a buscar respostas para questões fundamentais:

  • por que existe algo em vez do nada?
  • nossa característica de ter uma inquietude profunda sobre a vida surgiu por acaso, como efeito colateral da evolução natural, ou foi criada conscientemente por um ser superior?
  • deixamos de existir, como indivíduos conscientes, com a morte física?
  • se não, viveremos para sempre ou há um limite?

Pela profundidade destas perguntas, percebe-se que compreender o sentido da vida não é tarefa simples, isolada de questões filosóficas basilares ainda inacessíveis ao nosso conhecimento.

Há também alguns pontos adicionais.

  • E se não existir sentido nenhum, caso nossa existência seja fruto do mero acaso? Sendo assim, resta o existencialismo, segundo o qual cabe a nós criar um sentido para nossas vidas. Ou seja, pesquisar o sentido da vida é inútil, e estamos perdendo tempo se não nos ocupamos desde já em construir um.
  • Supondo que fomos criados por Deus para realizar uma missão específica. Por exemplo, preparar o mundo para seres mais avançados, criando tecnologias que deem a eles conforto. Ou que somos uma experiência, para testar certos parâmetros de um modelo físico-matemático rumo à criação de uma raça mais perfeita. Isso significa para nós que este é sentido da nossa vida? Provavelmente não. Pois temos uma consciência que transcende eventuais missões mais simples, e não nos sentiríamos plenos se ficássemos apenas confinados a elas. Assim como se criássemos um robô tão complexo quanto nós mesmos para ser nosso escravo, ele não sentiria que esta é sua grande missão. Talvez esta questão recaia na anterior, e cada um teria que criar um sentido para si.

O que fazer então?

Certamente não ficar esperando de braços cruzados alguém solucionar a grande questão. Até porque a probabilidade de que se chegue a uma resposta enquanto vivermos é muito baixa. Resta-nos fazer algo que seja útil considerando os principais sentidos da vida possíveis. Certamente ao buscar intensamente o conhecimento (científico, moral, filosófico, artístico, de si mesmo, ...), e colaborar para que os outros também o busquem, não estaremos desperdiçando nosso tempo.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Para onde estamos indo?

Temos tantas atividades simultâneas, profissionais, acadêmicas, de diversão, meio que aleatoriamente escolhidas e sem grande interconexão entre si, pois não sabemos o objetivo de nossa vida. A procastinação, ausência de planejamento e falta de sentido faz com que estejamos sempre atrasados. Solução: tomar o remédio Omeprazol, para revestir o estômago atingido pelo stress.

O normal da sociedade parece ser usar o tempo livre com diversão. Por não termos encontrado o motivo de nossas vidas, não conseguimos nos encaixar neste padrão, sendo que o vício em entretenimento parece não trazer a mesma felicidade que traz para os outros. Solução: mesmo sem ter uma doença clínica, tomar Prozac ou Zoloft.

O dentista avisa que temos bruxismo, comportamento tipicamente causado por ansiedade com a vida, por insegurança com nossas escolhas, por falta de serenidade. Solução: confeccionar uma placa dentária anti-bruxismo.

domingo, 1 de abril de 2012

Entretenimento = Distrações = Obstáculo a Desviar

por Alberto Ronconi


Este blog é repetitivo às vezes. Assim como o excelente Study Hacks foca bastante na "prática deliberada" e o inspirador zenhabits insiste nos hábitos saudáveis, aqui nós falamos bastante sobre evitar distrações.

Um livro que tenta trazer o estoicismo para o presente mostra que já se tentava evitar distrações há 2000 anos atrás. Outra postagem muito interessante em um blog sobre vida simples mostra como o entretenimento é nocivo.

Essas ideias se assemelham a algumas que apresentamos aqui com frequência.

Mas o que é esse entretenimento, tão pernicioso para o aprimoramento da vida? Podem ser os hobbies, os passatempos que se leva a sério. Mas também pode ser a busca aleatória por pequenas doses de diversão, como assistir a um programa de comédia, ou ficar completamente bêbado com os amigos para rir da situação deles. Pode ser ler infinitamente romances parecidos e previsíveis, ou então uma dedicação incansável ao noticiário. São coisas que viciam, e nunca nos satisfazem completamente (um seriado costuma terminar em clima de suspense, para fazer o gancho com a próxima temporada). E além de viciar nos impedem de fazer uma programação sistemática de como utilizar bem nosso tempo.

Tudo isso nos desvia do nosso verdadeiro objetivo. Não sei exatamente qual é ele, mas não penso que seja perder tempo em coisas que nós mesmos não achamos importantes, e com as quais de certa forma sabemos que não estamos aproveitando a vida de forma útil.