terça-feira, 8 de janeiro de 2019
Referência circular
Trabalho para poder comer bem
Como bem para conseguir trabalhar melhor
Trabalho bastante para poder dormir com conforto
Dormir um bom sono me ajuda a trabalhar bastante
Trabalho para poder comprar roupas boas
Compro roupas boas para usar no trabalho
Trabalho para poder descansar no domingo
Descanso no domingo para render mais na semana
Dizem que o homem, ser social, precisa do convívio com os demais
Pois é no trabalho que tenho os amigos do dia a dia
O homem também deve se divertir
Para isso existem as risadas sobre colegas e a chefia
O trabalhador trabalha para viver
E vive para trabalhar?
Pode parecer referência circular
Mas quem sabe é uma identidade...
E o homem não trabalha, mas é trabalho
quarta-feira, 26 de dezembro de 2018
Ciência é o que você sabe, filosofia é o que você não sabe
O título deste texto é uma frase de Bertrand Russell. Vamos nos basear nela para descrever uma ideia.
Iniciemos com a filosofia da mente. É uma área de estudo com registros desde a Grécia Antiga, pois as pessoas de todas as épocas querem saber como a mente funciona. Não necessariamente a parte técnica da neurofisiologia, mas o conceito mais amplo do que nos move, de quem somos nós, de qual a fonte do nosso livre-arbítrio. Por exemplo, Platão tinha a ideia dualista de que a inteligência humana (uma faculdade da mente ou alma) não pode ser identificada com o corpo físico, nem explicada a partir dele. Dois mil anos depois, Descartes também expressou pensamentos dualistas, identificando a mente com a consciência e diferenciando-a do cérebro, e formulando o problema mente-corpo numa forma que é usada até hoje.
O conhecimento da mente humana estava quase inteiramente no campo da filosofia. Embora seja possível que cada um observe a mente dos demais e que, por introspecção, explore a própria mente, as teorias propostas a partir destes métodos ainda não estão no campo da ciência.
Conforme a tecnologia avança, é possível realizar estudos mais complexos sobre a mente humana, como procurar correlação entre estados neuronais e sensações ou pensamentos. Desta forma, o que antes era puramente filosofia (com muitas possibilidades mas nenhuma certeza) vai aos poucos se transformando em ciência (quando as possibilidades vão sendo refutadas e resta algo cada vez mais próximo da certeza).
O problema é que ainda estamos muito longe de desvendar os problemas fundamentais, como por exemplo o problema difícil da consciência. Mesmo com toda a neuroimagem disponível, ainda só conseguimos explorar as estratégias que a mente usa para resolver problemas, mas não como surgem as sensações, ou qual a origem do livre arbítrio. Essa parte ainda é praticamente toda filosofia aguardando ser convertida em ciência.
Mas os cientistas de hoje têm a percepção de que a solução para os problemas mais fundamentais não deve vir nem nas próximas décadas. Ou seja, a atual geração estaria privada para sempre da resposta às questões mais intrigantes sobre a mente. Por isso, ainda bem que existe a filosofia, para que possamos ao menos especular sobre as possíveis soluções.
Com a filosofia é possível organizar todas as hipóteses que forem sendo sugeridas, ao mesmo tempo que cada pensador pode desenvolver com mais detalhe as teorias iniciadas no passado. Desta forma, embora não tenhamos a sonhada resposta, pelo menos podemos imaginar que ela está escondida no meio da vastidão das teorias disponíveis, e pensar nas consequências de cada uma delas para a nossa percepção da realidade. Se dependêssemos inteiramente da ciência, durante milênios estaríamos totalmente às escuras.
O lado negativo de filosofar é que podemos estar completamente equivocados, e que incontáveis teses de doutorado podem estar sendo escritas com base em vento.
Talvez uma das razões que nos levam a ser curiosos em relação à meditação também seja essa. É a nossa chance de conhecer um pouco mais sobre nossa mente, ainda que de forma um pouco nebulosa e ainda que haja o risco de tomarmos caminhos errados. Pessoas com milhares de horas dedicadas à meditação conhecem sensações novas para o restante da humanidade, e podem eventualmente criar teorias sobre a realidade do mundo a partir delas.
Não deixa de ser um trade-off interessante: a filosofia nos dá respostas já, mas as verdades estão escondidas em um oceano de ilusões. A ciência não nos dá muita coisa no curto prazo, mas no longo prazo faz com que o oceano seja a verdade e que as ilusões sejam as pequenas ilhas.
Entretanto, provavelmente esta conclusão (e o título do texto) não vale para áreas da filosofia como a ética, que não estão no campo de interesse da ciência objetiva.
Iniciemos com a filosofia da mente. É uma área de estudo com registros desde a Grécia Antiga, pois as pessoas de todas as épocas querem saber como a mente funciona. Não necessariamente a parte técnica da neurofisiologia, mas o conceito mais amplo do que nos move, de quem somos nós, de qual a fonte do nosso livre-arbítrio. Por exemplo, Platão tinha a ideia dualista de que a inteligência humana (uma faculdade da mente ou alma) não pode ser identificada com o corpo físico, nem explicada a partir dele. Dois mil anos depois, Descartes também expressou pensamentos dualistas, identificando a mente com a consciência e diferenciando-a do cérebro, e formulando o problema mente-corpo numa forma que é usada até hoje.
O conhecimento da mente humana estava quase inteiramente no campo da filosofia. Embora seja possível que cada um observe a mente dos demais e que, por introspecção, explore a própria mente, as teorias propostas a partir destes métodos ainda não estão no campo da ciência.
Conforme a tecnologia avança, é possível realizar estudos mais complexos sobre a mente humana, como procurar correlação entre estados neuronais e sensações ou pensamentos. Desta forma, o que antes era puramente filosofia (com muitas possibilidades mas nenhuma certeza) vai aos poucos se transformando em ciência (quando as possibilidades vão sendo refutadas e resta algo cada vez mais próximo da certeza).
O problema é que ainda estamos muito longe de desvendar os problemas fundamentais, como por exemplo o problema difícil da consciência. Mesmo com toda a neuroimagem disponível, ainda só conseguimos explorar as estratégias que a mente usa para resolver problemas, mas não como surgem as sensações, ou qual a origem do livre arbítrio. Essa parte ainda é praticamente toda filosofia aguardando ser convertida em ciência.
Mas os cientistas de hoje têm a percepção de que a solução para os problemas mais fundamentais não deve vir nem nas próximas décadas. Ou seja, a atual geração estaria privada para sempre da resposta às questões mais intrigantes sobre a mente. Por isso, ainda bem que existe a filosofia, para que possamos ao menos especular sobre as possíveis soluções.
Com a filosofia é possível organizar todas as hipóteses que forem sendo sugeridas, ao mesmo tempo que cada pensador pode desenvolver com mais detalhe as teorias iniciadas no passado. Desta forma, embora não tenhamos a sonhada resposta, pelo menos podemos imaginar que ela está escondida no meio da vastidão das teorias disponíveis, e pensar nas consequências de cada uma delas para a nossa percepção da realidade. Se dependêssemos inteiramente da ciência, durante milênios estaríamos totalmente às escuras.
O lado negativo de filosofar é que podemos estar completamente equivocados, e que incontáveis teses de doutorado podem estar sendo escritas com base em vento.
Talvez uma das razões que nos levam a ser curiosos em relação à meditação também seja essa. É a nossa chance de conhecer um pouco mais sobre nossa mente, ainda que de forma um pouco nebulosa e ainda que haja o risco de tomarmos caminhos errados. Pessoas com milhares de horas dedicadas à meditação conhecem sensações novas para o restante da humanidade, e podem eventualmente criar teorias sobre a realidade do mundo a partir delas.
Não deixa de ser um trade-off interessante: a filosofia nos dá respostas já, mas as verdades estão escondidas em um oceano de ilusões. A ciência não nos dá muita coisa no curto prazo, mas no longo prazo faz com que o oceano seja a verdade e que as ilusões sejam as pequenas ilhas.
Entretanto, provavelmente esta conclusão (e o título do texto) não vale para áreas da filosofia como a ética, que não estão no campo de interesse da ciência objetiva.
quinta-feira, 25 de janeiro de 2018
O sentido da vida no humanismo, segundo Y. Harari
Trecho do Livro Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã, capítulo 7
À medida que os humanos adquiriam confiança em si mesmos, uma nova fórmula para alcançar um conhecimento ético se revelava: Conhecimento = Experiências x Sensibilidade. Se quisermos ter a resposta a qualquer questão ética, precisamos nos conectar com nossas experiências interiores e observá-las com a máxima sensibilidade. Na prática, isso significa que estamos em busca de conhecimento quando passamos anos reunindo experiências e aguçando nossa sensibilidade de modo a compreender corretamente essas experiências. (...) Devo estar aberto a novas experiências e permitir que elas mudem minhas opiniões, meu comportamento e até mesmo minha personalidade.
Experiências e sensibilidade se incrementam reciprocamente num ciclo interminável. Não sou capaz de experimentar nada se não tiver sensibilidade, e não sou capaz de desenvolver sensibilidade a menos que passe por uma variedade de experiências. A sensibilidade não é uma aptidão abstrata que eu possa desenvolver lendo livros ou ouvindo palestras. É uma aptidão prática que só pode amadurecer e se consolidar quando aplicada na prática.
Tomemos, por exemplo, o chá. Começo tomando um chá comum muito doce, enquanto leio o jornal matutino. O chá não é muito mais do que um pretexto para me dopar com açúcar. Um dia eu me dou conta de que, entre o açúcar e o jornal, quase não sinto o gosto do chá. Então, reduzo a quantidade de açúcar, ponho o jornal de lado, fecho os olhos e me concentro no chá. Começo a perceber seu aroma e paladar únicos. Logo me vejo fazendo experiências com diferentes tipos de chá, pretos e verdes, comparando seus sabores deliciosos e os delicados buquês. Em poucos meses, abandono os rótulos de supermercado e compro meu chá no Harrods. Desenvolvo um gosto especial pelo "chá Esterco de Panda" das montanhas de Ya'an, na província de Sichuan, feito com as folhas de arbustos de chá que foram fertilizados com o esterco de pandas. É assim que, uma xícara de cada vez, eu aprimoro minha sensibilidade ao chá e me torno um conhecedor. Se, nos meus primeiros tempos de tomador de chá, você me servisse um chá Esterco de Panda numa taça de porcelana da dinastia Ming, eu não o apreciaria mais do que aprecio um chá comum num copo de papelão. Não se pode realmente experimentar algo se não se tem a sensibilidade necessária, e não se pode desenvolver a sensibilidade a não ser passando por uma longa sequência de experiências.
O que vale para o chá vale para outros conhecimentos éticos e estéticos. Não nascemos com uma consciência sob medida e pronta para ser usada. No decurso de nossa vida, magoamos pessoas e pessoas nos magoam, agimos compassivamente e outros demonstram compaixão para conosco. Se prestarmos atenção, nossa sensibilidade moral se aguçará, e essas experiências podem se tornar uma fonte de valioso conhecimento ético sobre o que é bom, sobre o que é correto e sobre quem realmente eu sou.
Assim, o humanismo vê a vida como um processo gradual de mudança interior, que parte da ignorância e chega à iluminação por meio de experiências. O mais alto objetivo de uma vida humanística é desenvolver completamente seu conhecimento mediante uma grande variedade de experiências intelectuais, emocionais e físicas. No início do século XIX, Wilhelm von Humboldt - um dos principais arquitetos da educação moderna - disse que o objetivo da existência é a "destilação da mais ampla experiência de vida possível para formar sabedoria". Ele escreveu também que "só existe um ponto culminante na vida - ter tomado as providências necessárias para sentir tudo o que é humano". Este bem poderia ser o lema do humanismo.
À medida que os humanos adquiriam confiança em si mesmos, uma nova fórmula para alcançar um conhecimento ético se revelava: Conhecimento = Experiências x Sensibilidade. Se quisermos ter a resposta a qualquer questão ética, precisamos nos conectar com nossas experiências interiores e observá-las com a máxima sensibilidade. Na prática, isso significa que estamos em busca de conhecimento quando passamos anos reunindo experiências e aguçando nossa sensibilidade de modo a compreender corretamente essas experiências. (...) Devo estar aberto a novas experiências e permitir que elas mudem minhas opiniões, meu comportamento e até mesmo minha personalidade.
Experiências e sensibilidade se incrementam reciprocamente num ciclo interminável. Não sou capaz de experimentar nada se não tiver sensibilidade, e não sou capaz de desenvolver sensibilidade a menos que passe por uma variedade de experiências. A sensibilidade não é uma aptidão abstrata que eu possa desenvolver lendo livros ou ouvindo palestras. É uma aptidão prática que só pode amadurecer e se consolidar quando aplicada na prática.
Tomemos, por exemplo, o chá. Começo tomando um chá comum muito doce, enquanto leio o jornal matutino. O chá não é muito mais do que um pretexto para me dopar com açúcar. Um dia eu me dou conta de que, entre o açúcar e o jornal, quase não sinto o gosto do chá. Então, reduzo a quantidade de açúcar, ponho o jornal de lado, fecho os olhos e me concentro no chá. Começo a perceber seu aroma e paladar únicos. Logo me vejo fazendo experiências com diferentes tipos de chá, pretos e verdes, comparando seus sabores deliciosos e os delicados buquês. Em poucos meses, abandono os rótulos de supermercado e compro meu chá no Harrods. Desenvolvo um gosto especial pelo "chá Esterco de Panda" das montanhas de Ya'an, na província de Sichuan, feito com as folhas de arbustos de chá que foram fertilizados com o esterco de pandas. É assim que, uma xícara de cada vez, eu aprimoro minha sensibilidade ao chá e me torno um conhecedor. Se, nos meus primeiros tempos de tomador de chá, você me servisse um chá Esterco de Panda numa taça de porcelana da dinastia Ming, eu não o apreciaria mais do que aprecio um chá comum num copo de papelão. Não se pode realmente experimentar algo se não se tem a sensibilidade necessária, e não se pode desenvolver a sensibilidade a não ser passando por uma longa sequência de experiências.
O que vale para o chá vale para outros conhecimentos éticos e estéticos. Não nascemos com uma consciência sob medida e pronta para ser usada. No decurso de nossa vida, magoamos pessoas e pessoas nos magoam, agimos compassivamente e outros demonstram compaixão para conosco. Se prestarmos atenção, nossa sensibilidade moral se aguçará, e essas experiências podem se tornar uma fonte de valioso conhecimento ético sobre o que é bom, sobre o que é correto e sobre quem realmente eu sou.
Assim, o humanismo vê a vida como um processo gradual de mudança interior, que parte da ignorância e chega à iluminação por meio de experiências. O mais alto objetivo de uma vida humanística é desenvolver completamente seu conhecimento mediante uma grande variedade de experiências intelectuais, emocionais e físicas. No início do século XIX, Wilhelm von Humboldt - um dos principais arquitetos da educação moderna - disse que o objetivo da existência é a "destilação da mais ampla experiência de vida possível para formar sabedoria". Ele escreveu também que "só existe um ponto culminante na vida - ter tomado as providências necessárias para sentir tudo o que é humano". Este bem poderia ser o lema do humanismo.
sábado, 25 de novembro de 2017
Alguns conceitos do livro Antifrágil
Não se trata de um livro resumindo conhecimentos adquiridos pela ciência ao longo dos anos, como vários outros de divulgação científica, mas sim um texto opinativo apresentando uma teoria própria, que muitas vezes vai contra conceitos considerados mainstream. Talvez o autor queira correr o risco de errar em algumas ideias para ter grandes acertos em outras. O problema é saber onde ele está errado ou certo.
1) Barbell strategy
Barbell significa algo como halteres (barra com um conjunto de pesos em cada extremidade). Em muitas oportunidades podemos usar estratégia análoga: concentrar esforços em dois pontos opostos das possibilidades. Por exemplo, em investimentos, escolher parte extremamente segura (robusta a eventos extremos) e parte de alto risco. Assim, evitamos agrupar todos os nossos recursos na parte do meio, que tem risco baixo mas ainda está sujeita a eventos "cisne negro". Esta estratégia pode ser utilizada também na alimentação, nos exercícios físicos, na nossa lista de leituras, no uso do tempo (trabalho duro e puro ócio; ou pura ação em uma fase e pura reflexão em outra posterior), etc. A vantagem em todos os casos é que teríamos a garantia de um retorno mínimo, e ao mesmo tempo a possibilidade de um retorno elevado.
2) Green lumber fallacy
Um das pessoas com o maior sucesso na negociação de derivativos atrelados à commodity "madeira verde" admitiu, depois de ano de operação, que achava estar negociando madeira pintada de verde. Mas na verdade madeira verde significa madeira recém cortada. Enquanto isso, muitos traders que visitavam plantações, consultavam a previsão do tempo e estudavam a influência na colheita não tinham o mesmo sucesso. Isso significa que ser especialista no conceito do produto não é a mesma coisa que ser especialista em negociá-lo.
3) Opcionalidade
É aquilo que torna algo antifrágil. Quando uma pessoa tem opção de fazer duas coisas, ela está em grande vantagem, pois ao longo do tempo as coisas podem mudar e ela pode exercer uma ou outra opção. Eventualmente uma opção pode passar a ser muito mais vantajosa que outra. Os eventos aleatórios beneficiam quem tem opções. As opções financeiras são precificadas, mas muitas vezes temos opções gratuitas em outros campos, e quem usa esse fato em sua vantagem pode obter grandes benefícios. Muitas pessoas em importantes posições acreditam intuitivamente na linearidade, mas o mundo é não linear, e pequenas variações podem trazer grandes consequências.
4) O frágil, o antifrágil e o robusto
Frágil é aquilo que funciona em certas condições, mas pode quebrar se houver mudança no ambiente. Antifrágil é aquilo que pode eventualmente se beneficiar de mudanças no ambiente, pois tem opcionalidade. Robusto é aquilo que não liga para mudanças no ambiente. (Se uma função é convexa, ou antifrágil, então a média da função de algo será maior que a função da média desse algo. E o contrário ocorre quando a função é convexa, ou frágil.)
5) Turkey problem
Um peru economista poderia analisar três anos de sua vida de engorda, e extrapolar sua série histórica para um futuro semelhante. Afinal ele sempre recebeu comida e nunca foi abatido. Mas esta análise não levaria em conta que existem efeitos raros que não estão disponíveis como informação passada. Qualquer extrapolação falharia.
6) Excesso de informação
Nos dados existe informação e ruído. Quando consultamos dados anuais, digamos que exista metade informação e metade ruído. Mas se temos acesso a dados diários, como acontece em muitas ocasiões, teríamos acesso a pouca informação e muito ruído. E nas cotações da bolsa de valores, com dados horários ou a cada minuto, praticamente tudo é ruído, e ao acompanhar em um prazo tão curto perdemos qualquer noção de informação.
7) Nontransferability of skills
Existe o lúdico, como os jogos de xadrez, em que as regras são bem conhecidas e limitadas. As pessoas com grandes habilidade no xadrez não levam vantagem na vida real, onde as regras são difusas e ilimitadas. O que as pessoas aprendem na sala de aula, com os exemplos prontos, ou os testes em que sempre há uma resposta certa aguardando para ser descoberta, não significam sucesso na vida real, onde os problemas são abertos. O sucesso na sala de aula não é transferível para sucesso no mundo dos negócios (ocorre o efeito loss in translation).
8) Tinkering
Talvez possa ser traduzido como "remendo"; é algo feito gradualmente com base na tentativa e erro. Em vez de alguém deduzir teoricamente as leis que regem a vida, é mais efetivo simplesmente tentar pequenas inovações na prática. Isto fez muitas ciências evoluírem, como a medicina e engenharia. A verdadeira ciência está em pessoas sem treinamento formal aperfeiçoarem gradativamente o que já existe, e não em alguma descoberta bombástica feita na universidade. Os negociadores de opções já conheciam na prática, e com muito mais sofisticação, a fórmula de Black-Scholes que veio a ser publicada muitos anos depois. Mais precisamente, existe o "convex tinkering", que são os remendos com consequências não lineares: um remendo pequeno pode eventualmente desembocar numa melhoria grande.
9) Iatrogenia
É o dano causado pelo excesso de intervenção. Por exemplo, na Medicina, podemos ter a tendência de procurar tratamento quando não seria necessário, e este tratamento poderia trazer mais danos que benefícios. Aconteceria também na alimentação saudável: os ingredientes balanceados ingeridos em horários regulares poderiam fazer mal ao corpo, que se beneficiaria de alguma aleatoriedade em quantidades e horários. Mas este conceito poderia ser aplicado em outras áreas, como por exemplo o excesso de intervenção nos investimentos, quando uma mudança frequente de estratégia causaria mais dano que não fazer nada.
10) Scholars e practitioners
Os filósofos muitas vezes discutem o mundo das formas, das ideias, as ontologias. Enquanto isso, o que interessa de verdade para as pessoas são os riscos e recompensas de cada ação.
11) Epifenômeno
Algo que é causado mas não causa nada. O autor especula que pode ser o caso das universidades: elas são causadas pelo enriquecimento da população (que passa a investir em educação com o objetivo de sistematizar o conhecimento para obter mais riqueza), mas podem não causar nada - não trazem efeitos importantes no enriquecimento da sociedade. (As universidades acham que estão ensinando os pássaros a voar, ao dar-lhes aula de aerodinâmica e biologia.)
12) Cherry-picking
É escolher alguma evidência anedótica favorável para defender uma teoria. Em geral as cerejas não são todas bonitas, mas quem vê apenas as cerejas colhidas, pensa que todas são bonitas. Este método pode ser utilizado para explicar o passado, escolhendo apenas as variáveis que corroboram determinada teoria. Quando mais dados existirem, mais fácil será encontrar dados com alta correlação com o que foi previsto, e mais fácil será encontrar explicações de por que o que aconteceu foi diferente da previsão.
13) Conflation problem
Talvez possa ser traduzido por problema da conjugação. Significa confundir o preço do petróleo com geopolítica, ou confundir uma aposta em que se obteve lucro por uma previsão de qualidade - e não convexidade do payoff e opcionalidade.
14) Less is more in decision making (contrary to the method of putting a series of pros and cons side by side on a computer screen)
Se você tem mais de uma razão para fazer algo (escolher um médico, contratar alguém, casar-se ou viajar para algum lugar), não faça isso. Não significa que uma razão é melhor que duas - apenas que, quando se invoca mais de uma razão, a pessoa está tentando convencer a si mesma a fazer algo. Decisões óbvias (robustas ao erro) não precisam de mais que uma única razão.
1) Barbell strategy
Barbell significa algo como halteres (barra com um conjunto de pesos em cada extremidade). Em muitas oportunidades podemos usar estratégia análoga: concentrar esforços em dois pontos opostos das possibilidades. Por exemplo, em investimentos, escolher parte extremamente segura (robusta a eventos extremos) e parte de alto risco. Assim, evitamos agrupar todos os nossos recursos na parte do meio, que tem risco baixo mas ainda está sujeita a eventos "cisne negro". Esta estratégia pode ser utilizada também na alimentação, nos exercícios físicos, na nossa lista de leituras, no uso do tempo (trabalho duro e puro ócio; ou pura ação em uma fase e pura reflexão em outra posterior), etc. A vantagem em todos os casos é que teríamos a garantia de um retorno mínimo, e ao mesmo tempo a possibilidade de um retorno elevado.
2) Green lumber fallacy
Um das pessoas com o maior sucesso na negociação de derivativos atrelados à commodity "madeira verde" admitiu, depois de ano de operação, que achava estar negociando madeira pintada de verde. Mas na verdade madeira verde significa madeira recém cortada. Enquanto isso, muitos traders que visitavam plantações, consultavam a previsão do tempo e estudavam a influência na colheita não tinham o mesmo sucesso. Isso significa que ser especialista no conceito do produto não é a mesma coisa que ser especialista em negociá-lo.
3) Opcionalidade
É aquilo que torna algo antifrágil. Quando uma pessoa tem opção de fazer duas coisas, ela está em grande vantagem, pois ao longo do tempo as coisas podem mudar e ela pode exercer uma ou outra opção. Eventualmente uma opção pode passar a ser muito mais vantajosa que outra. Os eventos aleatórios beneficiam quem tem opções. As opções financeiras são precificadas, mas muitas vezes temos opções gratuitas em outros campos, e quem usa esse fato em sua vantagem pode obter grandes benefícios. Muitas pessoas em importantes posições acreditam intuitivamente na linearidade, mas o mundo é não linear, e pequenas variações podem trazer grandes consequências.
4) O frágil, o antifrágil e o robusto
Frágil é aquilo que funciona em certas condições, mas pode quebrar se houver mudança no ambiente. Antifrágil é aquilo que pode eventualmente se beneficiar de mudanças no ambiente, pois tem opcionalidade. Robusto é aquilo que não liga para mudanças no ambiente. (Se uma função é convexa, ou antifrágil, então a média da função de algo será maior que a função da média desse algo. E o contrário ocorre quando a função é convexa, ou frágil.)
5) Turkey problem
Um peru economista poderia analisar três anos de sua vida de engorda, e extrapolar sua série histórica para um futuro semelhante. Afinal ele sempre recebeu comida e nunca foi abatido. Mas esta análise não levaria em conta que existem efeitos raros que não estão disponíveis como informação passada. Qualquer extrapolação falharia.
6) Excesso de informação
Nos dados existe informação e ruído. Quando consultamos dados anuais, digamos que exista metade informação e metade ruído. Mas se temos acesso a dados diários, como acontece em muitas ocasiões, teríamos acesso a pouca informação e muito ruído. E nas cotações da bolsa de valores, com dados horários ou a cada minuto, praticamente tudo é ruído, e ao acompanhar em um prazo tão curto perdemos qualquer noção de informação.
7) Nontransferability of skills
Existe o lúdico, como os jogos de xadrez, em que as regras são bem conhecidas e limitadas. As pessoas com grandes habilidade no xadrez não levam vantagem na vida real, onde as regras são difusas e ilimitadas. O que as pessoas aprendem na sala de aula, com os exemplos prontos, ou os testes em que sempre há uma resposta certa aguardando para ser descoberta, não significam sucesso na vida real, onde os problemas são abertos. O sucesso na sala de aula não é transferível para sucesso no mundo dos negócios (ocorre o efeito loss in translation).
8) Tinkering
Talvez possa ser traduzido como "remendo"; é algo feito gradualmente com base na tentativa e erro. Em vez de alguém deduzir teoricamente as leis que regem a vida, é mais efetivo simplesmente tentar pequenas inovações na prática. Isto fez muitas ciências evoluírem, como a medicina e engenharia. A verdadeira ciência está em pessoas sem treinamento formal aperfeiçoarem gradativamente o que já existe, e não em alguma descoberta bombástica feita na universidade. Os negociadores de opções já conheciam na prática, e com muito mais sofisticação, a fórmula de Black-Scholes que veio a ser publicada muitos anos depois. Mais precisamente, existe o "convex tinkering", que são os remendos com consequências não lineares: um remendo pequeno pode eventualmente desembocar numa melhoria grande.
9) Iatrogenia
É o dano causado pelo excesso de intervenção. Por exemplo, na Medicina, podemos ter a tendência de procurar tratamento quando não seria necessário, e este tratamento poderia trazer mais danos que benefícios. Aconteceria também na alimentação saudável: os ingredientes balanceados ingeridos em horários regulares poderiam fazer mal ao corpo, que se beneficiaria de alguma aleatoriedade em quantidades e horários. Mas este conceito poderia ser aplicado em outras áreas, como por exemplo o excesso de intervenção nos investimentos, quando uma mudança frequente de estratégia causaria mais dano que não fazer nada.
10) Scholars e practitioners
Os filósofos muitas vezes discutem o mundo das formas, das ideias, as ontologias. Enquanto isso, o que interessa de verdade para as pessoas são os riscos e recompensas de cada ação.
11) Epifenômeno
Algo que é causado mas não causa nada. O autor especula que pode ser o caso das universidades: elas são causadas pelo enriquecimento da população (que passa a investir em educação com o objetivo de sistematizar o conhecimento para obter mais riqueza), mas podem não causar nada - não trazem efeitos importantes no enriquecimento da sociedade. (As universidades acham que estão ensinando os pássaros a voar, ao dar-lhes aula de aerodinâmica e biologia.)
12) Cherry-picking
É escolher alguma evidência anedótica favorável para defender uma teoria. Em geral as cerejas não são todas bonitas, mas quem vê apenas as cerejas colhidas, pensa que todas são bonitas. Este método pode ser utilizado para explicar o passado, escolhendo apenas as variáveis que corroboram determinada teoria. Quando mais dados existirem, mais fácil será encontrar dados com alta correlação com o que foi previsto, e mais fácil será encontrar explicações de por que o que aconteceu foi diferente da previsão.
13) Conflation problem
Talvez possa ser traduzido por problema da conjugação. Significa confundir o preço do petróleo com geopolítica, ou confundir uma aposta em que se obteve lucro por uma previsão de qualidade - e não convexidade do payoff e opcionalidade.
14) Less is more in decision making (contrary to the method of putting a series of pros and cons side by side on a computer screen)
Se você tem mais de uma razão para fazer algo (escolher um médico, contratar alguém, casar-se ou viajar para algum lugar), não faça isso. Não significa que uma razão é melhor que duas - apenas que, quando se invoca mais de uma razão, a pessoa está tentando convencer a si mesma a fazer algo. Decisões óbvias (robustas ao erro) não precisam de mais que uma única razão.
domingo, 20 de agosto de 2017
Aposta de Pascal - visão alternativa
Queremos evoluir alguma imperfeição em nosso comportamento automático. Por exemplo, muito nos incomoda um estado agudo de irritabilidade que brota após a provocação de alguém.
Se analisamos a questão pelo ângulo da continuidade da vida após a morte, podemos nos conformar em fazer pequenas correções neste comportamento a cada ocasião, visando atingir um estado de tranquilidade no futuro distante. Afinal, é bem mais comum idosos se mostrarem sábios e impassíveis diante da ansiedade de curto prazo manifestada pelos jovens nos acontecimentos cotidianos.
Mas se pensarmos numa existência finita, durando menos que um século, torna-se urgente nos apressarmos para alcançar a habilidade da paciência. Afinal, uma pequena irritação pode nos fazer perder um dia ou dois de tranquilidade, que são preciosos diante do nosso tempo restante.
Assim, em alguns aspectos parece que vale a pena nos comportarmos de forma oposta à conclusão do post mais antigo sobre a Aposta de Pascal: considerar a vida como passageira nos impulsiona a buscar melhorias sem perdas de tempo.
Se analisamos a questão pelo ângulo da continuidade da vida após a morte, podemos nos conformar em fazer pequenas correções neste comportamento a cada ocasião, visando atingir um estado de tranquilidade no futuro distante. Afinal, é bem mais comum idosos se mostrarem sábios e impassíveis diante da ansiedade de curto prazo manifestada pelos jovens nos acontecimentos cotidianos.
Mas se pensarmos numa existência finita, durando menos que um século, torna-se urgente nos apressarmos para alcançar a habilidade da paciência. Afinal, uma pequena irritação pode nos fazer perder um dia ou dois de tranquilidade, que são preciosos diante do nosso tempo restante.
Assim, em alguns aspectos parece que vale a pena nos comportarmos de forma oposta à conclusão do post mais antigo sobre a Aposta de Pascal: considerar a vida como passageira nos impulsiona a buscar melhorias sem perdas de tempo.
terça-feira, 4 de abril de 2017
Como seria a vida fora do trabalho?
Qual seria sua principal atividade se já tivesse um patrimônio suficiente para, apenas com os rendimentos, suprir todas as necessidades básicas de sua família, como alimentação, saúde, moradia e educação?*
* isso pode ser possível, por exemplo, se você tiver um patrimônio livre de 400 vezes seus gastos mensais
- Continuaria trabalhando, para ter dinheiro para viajar ou frequentar bons restaurantes
- Dedicaria a vida a trabalhos voluntários, para melhorar a vida de outras pessoas
- Buscaria imersão em atividades relacionadas à arte
- Escolheria descanso e ócio
- Focaria na esfera espiritual
- Estudaria a fundo um ou mais temas de interesse
- Preferiria diversões de baixo custo, como TV, internet, passear pela cidade, atividades físicas
* isso pode ser possível, por exemplo, se você tiver um patrimônio livre de 400 vezes seus gastos mensais
segunda-feira, 3 de abril de 2017
O sentido da vida segundo Tim Ferris
Essas dúvidas [sobre a decisão de sair da engrenagem] invadem
a mente quando não há nada a ocupá-la. Pense em uma hora em que você se sinta
100% vivo e concentrado. É provável que seja uma hora em que você tenha estado
completamente focado em algo externo: algo ou alguém. Esporte e sexo são dois
grandes exemplos. Faltando um foco externo, a mente volta-se para si mesma e
cria problemas para serem resolvidos, mesmo que os problemas sejam indefinidos
ou desimportantes. Se você encontrar um foco, um objetivo ambicioso que pareça
impossível e force você a crescer (experiência máxima da hierarquia das
necessidades de Maslow), essas dúvidas desaparecem.
No processo de procurar um novo foco, é praticamente
inevitável que as “grandes” questões apareçam. Há uma pressão onipresente dos
pseudofilósofos para deixar de lado o impertinente e responder ao eterno. Dois
exemplos populares são “qual o sentido da vida?” e “qual é o ponto disso tudo?”.
Há muitas outras, das mais introspectivas às ontológicas,
mas tenho uma resposta para praticamente todas elas – simplesmente não respondê-las.
Não sou niilista. Na verdade, passei mais de uma década
investigando a mente e o conceito de sentido, uma busca que me levou dos
laboratórios de neurociência das melhores universidades a instituições religiosas
mundo afora. A conclusão, depois de tudo, é surpreendente.
Estou 100% convicto de que a maior parte das grandes
questões que nos sentimos compelidos a enfrentar – legadas através de séculos de
pensar excessivamente e traduções ruins – usam termos tão indefinidos que
tentar respondê-las é uma completa perda de tempo. Isto não é deprimente. É
libertador.
Pense na pergunta das perguntas: Qual é o sentido da vida?
Se pressionado, tenho apenas uma resposta: é o estado
característico ou a condição de um organismo vivo. “Mas isso é apenas uma
definição”, retrucará quem perguntou, “não é isso que eu quero dizer.” O que
você quer dizer, então? Até que a pergunta esteja clara – cada termo nela bem
definido -, não há por que respondê-la. A pergunta sobre o “sentido” da “vida”
é irrespondível sem uma elaboração posterior.
Antes de gastar tempo em uma pergunta estressante, grande,
ou qualquer outra coisa, garanta que a resposta para as duas perguntas a seguir
seja “sim”:
1. Defini um único significado para cada termo
nesta pergunta?
2. Uma resposta para esta pergunta pode ser posta
em prática para melhorar as coisas?
“Qual o sentido da vida?” falha em ambas as perguntas. Questões
sobre coisas além de sua esfera de influência – como “E se o trem atrasar
amanhã?” – falham na segunda e, por isso, merecem ser ignoradas. Se você não puder definir ou não puder
agir, esqueça. Se você aprender apenas isso com este livro, você estará
entre o 1% mais realizador no mundo e manterá a maior parte do estresse
filosófico para fora de sua vida.
Afiar sua caixa mental de ferramentas práticas e lógicas não significa se tornar um ateu ou
agnóstico. É não ser burro e não ser superficial. É ser inteligente e
direcionar os seus esforços para onde possam fazer a diferença para você e para
os outros.
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