domingo, 23 de novembro de 2025

A eterna desconfiança

Sobre os textos publicados a partir de 2025 deverá pairar uma eterna desconfiança. Terão sido concebidos e escritos por humanos, com todos os seus defeitos e desejos? Ou serão meros esqueletos produzidos por IA, apenas revisados e assinados por pessoas reais?

Se antes os artigos científicos eram baseados em árdua pesquisa, e a consolidação de ideias estava sujeita aos vieses humanos, agora podem ser massivamente materializados por interpoladores de padrões, com os pesquisadores apenas filtrando as alucinações.

Se antes as matérias de jornal eram escritas em teclados barulhentos por um jornalista fumando em um cubículo na redação, agora apenas alguns tópicos digitados no celular podem ser transformados em reportagem completa e pasteurizada.

Se antes os documentários baratos de TV eram narrados por uma voz lendo um texto poético com alguns clichês, a partir de agora os expectadores irão desperdiçar seu precioso tempo ouvindo linhas genéricas saídas de uma linha de produção monotonamente incansável.

Mesmo os livros. De não ficção, e até mesmo romances. E, claro, autoajuda. Tudo poderá ter sido pelo menos parcialmente delegado a robôs que multiplicam a produtividade dos autores. Em vez de escrever um livro bom por ano, por que não fazer cinco quase bons?

Daqui a uma década ou um século haverá um prazer especial, um respeito implícito, um saudosismo sutil, quando se for ler algo escrito antes de 2024. Porque será o único caso em que o leitor terá a certeza de estar conectando sua mente e sua alma com algum humano que sentiu aquilo que estava escrevendo, e de que provavelmente o escritor se sentia sozinho diante de seu equipamento, sua única arma sendo a própria inteligência chamada a produzir ao mesmo tempo sintaxe, semântica, coesão, sentido e sentimentos.


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