quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Sentido nos fundamentos

Não consegue ver nada como é. Ou talvez só ele consiga ver as coisas como realmente são.

Um carro não é a sensação de liberdade e a dopamina de seu motor de alguma marca. É a revolução industrial, a linha de produção e um cálculo econômico entre a vantagem do ônibus ou do veículo próprio.

Uma partida de futebol não tem nada a ver com torcida e catarse coletiva. É a análise do que leva o ser humano a vincular suas emoções efêmeras a um jogo inventado. A atenção é mais voltada para a reação da torcida a cada movimento do que para a competição em si.

Fogos de artifício são apenas um questionamento sobre calendários e rituais coletivos.

Os shows são uma oportunidade para refletir o que leva as pessoas a ter sensações eufóricas ao ouvir música coletivamente.

Ele sabe que o que as pessoas experimentam é real, mas essa capacidade de se extasiar em grupo deve estar em uma camada de abstração da realidade emergente que ele não consegue acessar.

Qualquer coisa do mundo é visto pela ótica da psicologia básica, ao big bang e aos primeiros princípios. 

Mais alguém sente o mundo assim? Como o crítico do filme, e não o expectador?


Distribuição de sensibilidade

A política tenta implementar condições de igualdade de oportunidade para todos.

Se todos começarem do mesmo ponto de partida, poderia ser aplicado o conceito de meritocracia.

Entretanto, o poder público só consegue atuar em restritas dimensões da vida humana.

Por exemplo, as pessoas são dotadas de habilidades muito diferentes entre si. Quem nasce com as competências de maior valor econômico fica em vantagem.

Mas não é só isso... A beleza física das pessoas é diferente, e isso pode ter grande influência ao longo da vida, determinando destinos e vivências.

Mas o objetivo deste texto é analisar a capacidade de perceber a beleza na arte e na natureza. Jung listou esse como um dos cinco fatores mais ou menos básicos que contribuem para a felicidade na mente humana.

Duas pessoas com riqueza e beleza semelhantes, e com uma vida igualmente confortável, podem ter grandes diferenças na sua "eudaimonia", se a capacidade de apreciar a beleza for muito diferente.

Algumas pessoas entram em êxtase ouvindo músicas, são profundamente tocadas apreciando quadros, ou tem momentos de epifania lendo livros. Para outras, essas expressões artísticas são indiferentes.

Isso a princípio não pode ser compensado por políticas públicas, e talvez não totalmente aprendido.

Embora Hume tenha falado sobre as habilidades que precisam ser desenvolvidas para apreciar a beleza, pode ser que exista um forte componente inato, como acontece por exemplo na pintura. Por mais esforçado que seja um artista, não chegará tão longe quanto o gênio.

Uma das pessoas terá experiências sofisticadas, conhecerá o sublime e o êxtase.

A outra ficará absorta em passatempos estáticos e diversões repetitivas.

Em algum conceito de felicidade, uma estará a frente da outra.

Inclusive pode desenvolver profunda inveja da capacidade da outra de se deslumbrar constantemente com o sublime. Uma inveja da profundidade, da possibilidade do outro transitar por locais cujo acesso é negado para aqueles de sensibilidade básica.

Em uma sociedade em que todos tivessem renda e beleza semelhantes, a hierarquia se ordenaria com base na riqueza interior. Aqueles capazes de criar significado e apreciar a beleza seriam a aristocracia, enquanto os demais seriam os miseráveis.

Mas isso se os "elevados" ostentassem demais como seus dons os levam para um estado de prazer superior, a ponto de formar maioria na opinião pública. Do contrário, poderiam ser tratados apenas como esnobes que forçam uma sofisticação para se achar melhores.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Angústia da influência

Grandes gênios eram famosos há séculos e continuam sendo hoje. É o caso de Aristóteles, Arquimedes, Cervantes, Galileu, Newton, Beethoven, Gauss, Machado de Assis, Van Gogh e tantos outros. E entraram para este time pensadores mais recentes, como Einstein e Bohr. É provável que daqui a mil anos essas pessoas continuem sendo conhecidas e veneradas por terem fundado novas áreas do conhecimento e da expressão humana.

Entretanto, o que as sociedades do futuro pensarão sobre o seu papel na história? No passado, "o mato estava mais alto", e grandes inteligências eram capazes de individualmente realizar progressos monumentais na ciência e nas artes.

Agora, as "low hanging fruits" não estão mais disponíveis, e gênios tão brilhantes quanto Einstein não causarão impactos que tornarão seus nomes famosos para a população em geral. 

Ou seja, de um milhão de mentes capazes de mudar mundo, apenas um punhado viveu antes do século XXI, no lugar e na hora certas que lhes deram a chance de produzir algo fundamental e grandioso.

Se continuarmos eternamente louvando sempre os mesmos gênios precursores, isso não será uma falta de sensibilidade com seus pares do futuro, os quais, ainda que dediquem a mesma energia e talento, serão esquecidos porque nasceram depois?

Será que a interpretação das sociedades do futuro não será radicalmente diferente da nossa, no sentido de reinterpretar a história da ciência, e dividir igualmente os méritos entre todas as gerações de cientistas esforçados? Caso contrário, pouco restará para os gênios do futuro, a não ser viver sempre à sombra de heróis míticos da era da pena. Cada vez mais será verdade que "Nada se diz que não tenha sido dito antes", como falou o dramaturgo Terêncio há mais de dois mil anos.

Que exemplo daremos para os jovens alunos de agora em diante? A ciência básica já foi praticamente descoberta, com a maior lacuna talvez sendo a natureza da consciência. Os lugares no Olimpo da música e da literatura já foram ocupados. Os nomes de teorias que são ensinadas nas escolas já estão definidos. Agora só resta espaço para colaborações de grandes times quase anônimos, ou para uma arte mais efêmera. Como manteremos a humanidade motivada e com propósito para enfrentar a aventura da criação científica de artística?


Sociedade da experiência

Assim como foi caracterizada a sociedade do cansaço, podemos igualmente identificar que no tempo presente configura-se a sociedade da experiência.

A obrigação que todos se impõem de não deixar nenhuma lacuna no bingo das experiências possíveis acaba por ser fonte de ansiedade e insatisfação.

Paradoxalmente, mesmo os que logram viver um espectro de experiências impensável para o ser humano de um século atrás preocupam-se mais com o ainda não vivido, com o imperdível que eternamente os assombrará.

Repete-se cada vez mais que a vida é finita, e portanto seria um desperdício e um erro incorrigível deixar de ter as principais experiências do nosso tempo.

Se chegou na cidade uma nova sorveteria, que inclusive por muitos é considerada a melhor, não posso deixar de conhecê-la, ainda que isso signifique enfrentar longas filas.

Se uma banda que tornou-se famosa nos tempos antigos ainda se apresenta, preciso assistir, para no futuro poder dizer que presenciei um momento histórico que não existirá mais na história do mundo.

Se a maioria dos influenciadores fala como é surpreendente viajar para um país distante na Ásia, não posso morrer antes de conhecer este lugar, sob a pena de ficar sem vivenciar uma atmosfera única.

Viajar de trem, ver neve, ir para o Japão, fazer crossfit, comer pistache, ler os clássicos, se estressar no trabalho. É trabalhoso ser uma pessoa completa.

Antes de pensarmos em planejamento de vida, nossa agenda já está cheia com listas de experiências imperdíveis, sem as quais não atingiremos a plenitude do ser humano.

 

domingo, 23 de novembro de 2025

A eterna desconfiança

Sobre os textos publicados a partir de 2025 deverá pairar uma eterna desconfiança. Terão sido concebidos e escritos por humanos, com todos os seus defeitos e desejos? Ou serão meros esqueletos produzidos por IA, apenas revisados e assinados por pessoas reais?

Se antes os artigos científicos eram baseados em árdua pesquisa, e a consolidação de ideias estava sujeita aos vieses humanos, agora podem ser massivamente materializados por interpoladores de padrões, com os pesquisadores apenas filtrando as alucinações.

Se antes as matérias de jornal eram escritas em teclados barulhentos por um jornalista fumando em um cubículo na redação, agora apenas alguns tópicos digitados no celular podem ser transformados em reportagem completa e pasteurizada.

Se antes os documentários baratos de TV eram narrados por uma voz lendo um texto poético com alguns clichês, a partir de agora os expectadores irão desperdiçar seu precioso tempo ouvindo linhas genéricas saídas de uma linha de produção monotonamente incansável.

Mesmo os livros. De não ficção, e até mesmo romances. E, claro, autoajuda. Tudo poderá ter sido pelo menos parcialmente delegado a robôs que multiplicam a produtividade dos autores. Em vez de escrever um livro bom por ano, por que não fazer cinco quase bons?

Daqui a uma década ou um século haverá um prazer especial, um respeito implícito, um saudosismo sutil, quando se for ler algo escrito antes de 2024. Porque será o único caso em que o leitor terá a certeza de estar conectando sua mente e sua alma com algum humano que sentiu aquilo que estava escrevendo, e de que provavelmente o escritor se sentia sozinho diante de seu equipamento, sua única arma sendo a própria inteligência chamada a produzir ao mesmo tempo sintaxe, semântica, coesão, sentido e sentimentos.


quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Singularidade

O conceito de singularidade do livro de Ray Kurzweil tem a ver com um momento em que a tecnologia começa a se auto melhorar de forma exponencial, e a partir daí o mundo fica incompreensível sob a nossa perspectiva atual.

Já neste texto, o significado de singularidade é diferente: elas aconteceram de forma recorrente na história da humanidade, se materializando em saltos que alteraram a própria natureza da sociedade.

Por exemplo, pode ter ocorrido uma singularidade quando o ancestral do ser humano desenvolveu habilidades que o separaram dos demais habitantes do planeta, como a capacidade de aprender com as gerações anteriores, e construir novas tecnologias a partir daí.

Isto claramente representou uma quebra de paradigma, permitindo a evolução exponencial. Sem essa capacidade, uma espécie animal podia viver milhões de anos com pouquíssimas mudanças, padecendo dos mesmos problemas de sempre. A partir do momento em que o humano conseguiu conscientemente melhorar aquilo que lhe foi ensinado pelos outros, em 100.000 anos saímos da idade da pedra para a idade dos chips.

Outra singularidade foi a invenção da imprensa. Hoje não temos acesso às obras de Homero, Platão e Arquimedes. Apenas fragmentos. A maior parte dos textos originais foi perdida. O que chegou até nós era transmitido oralmente ao longo dos séculos, ou copiado e recopiado manualmente, sempre com risco de alteração ou destruição. Mas, a partir da imprensa, um número arbitrário de cópias se tornou possível, e qualquer texto produzido a partir de então que tenha atingido um nível mínimo de importância chegou até os dias atuais intacto.

O compartilhamento de mídias na internet representa outra singularidade. Se antes era quase impossível que a opinião de um brasileiro comum chegasse até um japonês, agora isso é instantâneo. Todos podem disponibilizar publicamente textos, imagens e sons, que ficam acessíveis instantaneamente em qualquer lugar do mundo. Ou seja, antes o que era incerto e lento, agora é garantido e imediato. O tempo de compartilhamento de mídias foi reduzido para zero, e o tamanho das informações compartilháveis é virtualmente ilimitado. Todos têm acesso a todo o conteúdo que já foi produzido pela humanidade com alguns cliques.

De forma semelhante, com a invenção do smartphone e da disponibilização massiva de serviços online, tudo mudou novamente. As modas se propagam instantaneamente por todo o planeta. Os padrões de qualidade e objetos de desejo se tornaram mais ou menos os mesmos em qualquer lugar. Todos podem avaliar tudo, e com isso influenciar os demais. Opiniões de especialistas em qualquer assunto podem ser acessadas igualmente por todos, não existindo mais ilhas ou monopólios de conhecimento.

O próximo exemplo talvez seja a produção automatizada de conteúdo. Textos comentando todo e qualquer assunto inundarão cada centímetro quadrado do mundo digital. Existirão mais reportagens e notícias diferentes sobre cada assunto do que leitores. Marcas poderão abarrotar as redes com comentários "orgânicos" e réplicas personalizadas a reclamações. Dublagens, "stock photos", cursos, tudo será produzido à exaustão com custos irrisórios.

E futuros casos podem ser a geração ilimitada de energia, a  partir da fusão nuclear, que pode dar origem a muitos novos usos com custo irrisório. Outro exemplo seria se a humanidade conseguir construir robôs capazes de gerenciar e até construir fábricas, situação em que passaríamos rapidamente para um cenário de "classe inútil" no conceito de Harari.

Quando conseguirmos criar um robô que cozinhe e lave a louça, e chegar o momento em que for possível uma linha de montagem produzir inúmeras cópias idênticas, de uma hora para outra todos os que puderem pagar terão à sua disposição um restaurante particular, capaz de preparar qualquer prato do mundo com perfeição.

Então não é só quando a tecnologia conseguir se auto aperfeiçoar que haverá um salto exponencial. Ele já ocorreu várias vezes e continuará acontecendo, a cada vez que alguma tecnologia tornar preciso algo que era impreciso, ou instantâneo algo que demorava algum tempo.


sábado, 20 de setembro de 2025

A grandiosidade do ser humano

Como o homo sapiens pode ser tão incrível?

Todas as bilhões de pessoas do mundo, mais as 100 bilhões que já viveram no planeta nos últimos 50.000 anos, demonstram enormes habilidades.

Imagine a complexidade de dirigir um veículo. É preciso estar atento a uma enorme quantidade de variáveis a cada instante, além de ter um senso de localização que demanda a construção de um mapa mental. E um bilhão de pessoas fazem tudo isso sem muito esforço, em qualquer cidade de qualquer país.

E como os humanos conseguem tocar instrumentos musicais? Como um baterista sabe exatamente em que instante precisa bater em cada tambor, a uma velocidade assustadora, em centenas de músicas diferentes? Como os humanos conseguem memorizar letras de músicas após ouvi-las poucas vezes?

Quando vemos uma pessoa competente fazer um discurso, em poucos minutos ela consegue abordar assuntos extremamente diversos e abstratos, como filosofia, saúde, cotidiano, política, arte, estrutura organizacional das empresas. E todo mundo acompanha perfeitamente.

Em qualquer cidade do mundo, há alguém capaz de construir uma casa, consertar um carro ou tocar um violão.

Como um humano médio consegue transitar entre tantos temas profundos e complexos, cheios de edifícios conceituais, de forma natural? Produzir metáforas, generalizações abstratas, criar universos fantásticos, dominar a cultura pop, arquitetar planos grandiosos, cozinhar pratos de qualquer culinária?


Muito autor para pouco tempo coletivo disponível?

O que os professores mais querem são alunos atentos, receptivos à sua proposta pedagógica, e que fiquem satisfeitos com sua cuidadosa didática. Que maravilha uma plateia ouvindo atentamente suas teorias, piadas e reclamações

O que os músicos querem é que o público entre em êxtase coletivo ao som de sua música. Prova desse desejo é a imensa concorrência para ser gravado e ouvido

O que os escritores querem é que leitores passem horas imersos no mundo que criaram, e fiquem maravilhados com suas analogias perspicazes. Muitos autores dispendem consideráveis valores do próprio bolso em autolançamentos não solicitados

O que os Youtubers querem, além do dinheiro, é que o máximo possível de pessoas fique até o fim do vídeo e achem seu conteúdo útil

O que os podcasters querem é que os ouvintes dediquem horas para escutar atentamente suas intermináveis conversas


Talvez a produção de conteúdo seja muito mais prolífica do que a necessidade da humanidade

Tudo isso é apenas vaidade?

É uma necessidade de deixar um legado objetivo que transcenda o tempo da vida daquele que se expressa?

É para tentar estabelecer uma conexão com as pessoas, de forma que elas sintam o mesmo prazer que o criador do conteúdo sentiu durante o processo de criação?

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Como satisfazer a necessidade humana de expressar sua criatividade, se não há como todo mundo ter um público?

Produzir uma obra considerando que jamais será conhecida por nenhuma outra pessoa é algo válido, ou um ato absurdo?

Do ponto de vista do consumo de conteúdo, é melhor se dedicar às obras canônicas, que são antigas e universais? Ou é mais significativo se dedicar aos conteúdos produzidos por pessoas contemporâneas e locais, muitas vezes conhecidas, ainda que não atinjam o mesmo nível de profundidade dos clássicos?


segunda-feira, 12 de maio de 2025

Novos aforismos

Nas ciências sociais, a exceção comprova a regra; nas ciências extas, invalida a regra.

Livros de citações são o TikTok dos intelectuais.

Se uma pessoa só aprende verdadeiramente algo quando ensina, então, para que todos aprendam, é necessário que todos ensinem, mas aí faltariam alunos.

O pensador escreve o livro para si mesmo, pois, para seus leitores, seria melhor se estivessem ocupados escrevendo seus próprios livros.

Chega uma hora em que escrever é mais produtivo que ler.

Quando você acaba de comer é fácil pensar em começar uma dieta.

Em um mar de processos a burocracia navega, nunca podendo esquecer que é apenas o barco e não o destino.

Cada palavra supérflua redigida em um parecer e cada segundo consumido pelos rituais de uma reunião são pedaços da vida do servidor público tragados pela força gravitacional da burocracia estatal, a qual inexoravelmente se retroalimenta até colapsar, quando se torna um fim em si mesma.


Citações - Parte 3

O tempo que você gosta de perder não é tempo perdido - Marthe Troly-Curtin

Há duas maneiras de chegar em casa; e uma delas é permanecer lá. A outra é dar a volta no mundo inteiro até retornarmos ao mesmo lugar - Chesterton

Nada é suficiente para quem o suficiente é pouco - Epicuro

A verdadeira jornada da descoberta não consiste em buscar novas paisagens, mas em ter novos olhos - Marcel Proust

Todos nós devemos sofrer uma das duas dores: a dor da disciplina ou a dor do arrependimento. A diferença é que a disciplina pesa gramas, enquanto o arrependimento pesa toneladas - Jim Rohn

A forma mais invisível do tempo perdido é fazer um bom trabalho numa tarefa sem importância - James Clear

Somos culpados pelo que fazemos, mas não pelo que sentimos - Rubem Alves

A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente - Rubem Alves

Os turistas não sabem onde estiveram; os viajantes não sabem para onde estão indo - Paul Theroux


Simplicidade

A simplicidade é o último grau da sofisticação - Leonardo da Vinci

Para todo problema complexo existe uma solução simples, elegante e errada - paráfrase de citação de H. L. Mencken

Na mente do principiante há muitas possibilidades; na mente do especialista há poucas - Shunryu Suzuki

Tudo deve ser feito tão simples quanto possível; mas não mais simples que isso - atribuída a Einstein

Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade com muito trabalho - Clarice Lispector


Especialista e generalista

A jack of all trades is a master of none, but oftentimes better than a master of one

Não ver a floresta por causa das árvores.

Se você olha a floresta, você não vê as árvores

Especialização é para insetos - Robert Heinlein

O especialista aprende mais e mais sobre menos e menos, até que ele finalmente conhece tudo sobre nada - Konrad Lorenz

O generalista é alguém que sabe menos e menos sobre mais e mais, até que eventualmente ele não sabe nada sobre tudo - Nicholas Butler

sábado, 13 de julho de 2024

Por que desconfio dos livros de ficção?

Sabemos que a confiabilidade do ChatGPT, ou qualquer outro modelo generativo, não é grande. Eles são especialistas em produzir textos que parecem reais, e em responder perguntas com confiança.

Mais ou menos como um político citando fatos e números, cuspindo grandes quantidades de informações importantes, mas difíceis de serem comprovadas de pronto.

Matematicamente, para um texto verdadeiro e preciso, é possível escrever milhões de variações igualmente convincentes, mas erradas. Ou seja, se houver aleatoriedade, a chance de sermos enganados nos detalhes é considerável.

Mas meu objetivo não é falar sobre estes modelos, e sim sobre livros normais. O ChatGPT é uma revolução que explodiu na década de 2020, enquanto os romances existem há milênios.

O meu ponto é que essas ficções todas podem padecer dos mesmos problemas que os modelos artificiais de linguagem. As chamadas alucinações, que parecem ser um problema novo para a humanidade, talvez já existam desde sempre. Neste caso, sempre fomos enganados por sutilezas.

Eu me refiro especificamente à construção psicológica dos personagens de um livro. Podem ser profundos, interessantes. Mas será que poderiam ser reais?

Um livro não é a realidade, apenas a imaginação do escritor. E esse escritor tem muitos objetivos ao fazer um personagem. Precisa criar uma personalidade interessante, que se encaixe na história, e tenha características com as quais o leitor se identifique.

Construir um personagem é um cálculo complexo, como achar uma peça que se encaixe em um grande quebra-cabeças.

Mas esse não é o principal problema. A questão é que não basta o autor saber escrever bem, nem ter pesquisado fatos históricos para enriquecer a história. Para que os personagens sejam realistas, o autor precisa ser um profundo conhecedor da psicologia humana.

E acho que essa é a grande questão.

Claro que não me refiro aqui a Shakespeare ou aos grandes escritores russos, que são elogiados justamente por seu conhecimento da natureza humana. Tampouco me refiro aos personagens "arquétipos", cujo objetivo é ser um modelo para o leitor se espelhar, explorando a fronteira do impossível.

Me refiro aos autores de best-sellers modernos, de histórias de detetive, dos textos analisados nos clubes do livro.

Em geral, os personagens não me parecem muito realistas. Costumam ter uma obstinação fora do normal, ou saber bem demais o que querem, ou ter comportamentos improváveis, ou capacidades que não são do homem médio e talvez de nenhum homem.

Claro que, para o leitor mais interessado no suspense da história, na criatividade do romance, na viagem mental que a literatura proporciona, tudo isso pode ser secundário.

Mas, como ler um livro é algo que demanda tanto tempo,  e algo que deveria trazer conhecimento, faz sentido achar normal um personagem que jamais existiria na vida real?

Concluindo, acho que os autores têm o incentivo para produzir pessoas apenas críveis, que pareçam reais, mesmo que talvez sejam impossíveis de existir na vida real. Tal como o ChatGPT.

O leitor pensa estar diante de uma obra de "arte que imita a vida", mas está apenas lendo um Frankenstein de características psicológicas misturadas, que por fim resulta em um mundo artificial.

 

sábado, 13 de maio de 2023

O pensador

Era uma vez um homem cuja especialidade era pensar.

A mulher o convidava para fazerem atividades juntos, mas muitas vezes ele negava, pois ficaria em casa pensando.

Também era comum recusar quando os amigos o chamavam para confraternizações. Afinal ele trabalhava a semana toda, e quando tinha tempo livre, precisava aproveitar para pensar.

- Pensou muito hoje? - perguntava a mulher quando voltava para casa

- Sim, hoje foi bastante produtivo.

A mulher tinha orgulho do marido, pois claramente se diferenciava dos outros homens, que preferiam fazer atividades comuns, como churrasco ou jogar alguma coisa. Certamente era muito inteligente. Não conversava muito, provavelmente porque não gostava de assuntos banais.

Como a mulher tinha interesses mais mundanos, não perguntava muito para o marido como estava se desenvolvendo o seu raciocínio. Mas ela sabia que a qualquer momento ele faria algo grandioso, como uma descoberta ou uma iluminação filosófica.

Inclusive relatou para suas comadres que era casada com um gênio, que estava sempre pensando.

Não tardou até que uma das amigas, curiosa com a situação, interpelasse o nosso herói:

- Mas afinal, em que assunto você fica pensando tanto?

- Bem, em teorias científicas, metafísica, em como seria a vida ideal, essas coisas.

- Certo, mas o que especificamente você descobriu até agora? Me fale alguma coisa que você tenha pensado ultimamente.

- Eu gosto muito de pensar, mas não sou bom com discursos. Acho que não consigo traduzir para você o que eu já pensei. São assuntos muito complexos, que fazem sentido na minha mente, mas ainda não consigo transformá-los em palavras. Até se eu tentar escrever vai parecer algo superficial e inconsistente, inclusive meio clichê. Por isso prefiro continuar pensando, que é o que faço de melhor.


Filosofia dos hobbies


Hobbies como meio: você trabalha demais e precisa manter sua energia no máximo, pois qualquer inconsistência pode atrapalhar a escalada da ladeira corporativa. Os hobbies ajudam a desestressar (descompressão), e deixam você renovado para mais um dia intenso de trabalho. Eles são instrumentais, um pedágio que você precisa pagar para trabalhar bem, assim como comprar boas roupas de trabalho ou estudar para alguma certificação.

Hobbies como fim: você não gosta do trabalho, seja por ser um ambiente insalubre, por você se sentir preso fazendo a mesma atividade, ou porque você se sente gastando seu melhor tempo para beneficiar os patrões. Mas o que mantém sua motivação é saber que, ao fim do dia, poderá se dedicar ao seu hobby. Só isso já torna seu dia de trabalho mais agradável, sensação que só aumenta quando se aproxima o final de semana.

Profissionalização: o hobby é divertido quando é feito de forma amadora, sem qualquer compromisso com alto rendimento ou com monetização. Quando você abandonar seu trabalho normal e se dedicar apenas ao hobby, vai precisar se preocupar com consistência, fazer grandes esforços para pequenos melhoramentos, e não poderá deixar de lado as partes chatas do seu hobby. Ele se tornará um trabalho, trazendo junto vários dos problemas de seu trabalho antigo.

Paradoxo dos hobbies: quando você trabalha e tem um hobby, o momento dedicado ao hobby é muito prazeroso. Quando você se aposenta e pode se dedicar só aos seus hobbies, eles ficam tediosos.

O prazer está na alternância: é um clichê muito repetido o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, entre lazer e cuidados pessoais, entre balancear a dieta saudável com pequenos prazeres, exercício com descanso. Algumas pessoas veem a parte trabalhosa como um castigo, e a outra como recompensa. Ficam imaginando como seria bom a independência financeira para se dedicarem apenas às atividades prazerosas, como seria bom ter um metabolismo mágico para se dedicar apenas a comer o que gosta. Mas será que isso daria o mesmo prazer, ou o verdadeiro prazer está em experimentar as atividades boas como um oásis para contrastar com as trabalhosas? O prazer está no lazer, ou então se confunde com o alívio que só existe após o esforço?


sábado, 14 de setembro de 2019

O que é resvalar?


As notícias que são veiculadas todos os dias sobre situações trágicas podem nos deixar muito tristes. Ainda que em escala muito reduzida, por algum tempo sentimos uma tristeza imaginando o que deve estar acontecendo com os outros. Se assistirmos TV ou lermos notícias com frequência, isso pode acontecer todos os dias. Ficamos em estado semipermanente de tristeza pelo sofrimento dos outros e com medo que aconteça algo com as pessoas que amamos.

Não podemos simplesmente querer ignorar estes fatos, pois eles realmente acontecem. Mas como agir?

É possível resvalar para um mundo sem a presença constante do sofrimento que está em todos os lugares?

Existem os embriagados por algo que reduz a intensidade dos pensamentos, os hipnotizados por alguém de carisma, os hedonistas (no sentido moderno) que estão como um alquimista em busca do que pode levar à próxima sensação de bem-estar. Os que acalmam a ansiedade resolvendo pequenos desafios. Existem os naturalmente otimistas, que enxergam a esperança de um futuro melhor. Os que vivem normalmente quando a sorte está ao seu lado.

Existem pessoas que se colocam em uma missão, que querem resolver um problema de longo prazo, que passam o tempo livre pensando em diferentes abordagens para melhorar ou criar algo. Há grandes problemas cuja solução (ou uma pequena parte dela) demora toda uma vida. Ser o melhor possível em algum esporte de resistência? Lutar por alguma causa ambiental, social, científica, humanitária? Convergir o foco para a criatividade, para revolucionar algo que esteja arraigado? Se inspirar no conceito do "super homem" filosófico?

Existem os estoicos, que voluntariamente se esforçam para ir contra sua tendência natural e tentam resvalar para um mundo sem expectativas.

Existem os meditadores, que treinam a mente para silenciar, e não ficar frequentemente direcionada para sentir o que percebem do sofrimento do mundo.

Existem os que buscam serenidade ou eternidade na arte.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Desabafo do generalista amador

"Jack of all trades, master of none"

Às vezes esqueço que sou uma pessoa de inteligência normal. O homem renascentista é um ideal restrito para os gênios. Tenho algumas ambições que não cabem no tempo de uma vida.

Se uma das coisas mais importantes é o conhecimento, e temos tanto dele disponível por aí, não tem como não querer saber sobre tudo. Ler, entender, e ser capaz de citar os grandes romances brasileiros e mundiais. Conhecer biologia, anatomia, como funciona o nosso cérebro. Física clássica, mecânica quântica e cosmologia. Filosofia antiga, da mente e da matemática. Hedonismo, existencialismo, conservadorismo clássico. Finanças, macroeconomia e econometria. Programação em Python e ciência de dados. Ser capaz de apreciar música, poesias e pinturas. Escrever bem e falar bonito em público. Cozinhar, ser bom em um esporte e no videogame. Dominar a profissão que exerço. Conseguir desestressar, saber meditar.

Para cada um desses itens, há pessoas que dedicam quase a vida toda. São sumidades em uma ou duas áreas e leigos nas demais. Mas como posso abrir mão de tantos assuntos charmosos, necessários para que eu seja uma pessoa completa?

Bom, é só pensar que, se até agora ainda não passei da superfície, e tudo o que consegui foi listar o que quero aprender, no restante da minha vida é que não vou dominar tudo isso.

Será que tenho que escolher só um tema para me aprofundar, e por meio dele sentir a beleza de tudo? Ou então me contentar com o conhecimento geral básico, no nível de um programa de auditório de perguntas? Ou ainda abandonar essa ideia e viver uma vida comum, como a maioria das pessoas?

Será que o que busco não é só o resultado (ser uma referência, admirado, ovacionado)? Não é simular a vida daqueles que são sumidades em algo? Dizem que devemos querer o caminho, e não o fim. Ou que o sucesso é consequência de fazer o que nos atrai, mas não acontece se ele for o próprio objetivo.

As bibliotecas e livrarias me oprimem. As enciclopédias online, com suas intermináveis cadeias de links, me oprimem. O mesmo com os aplicativos de podcast, as aulas online, e a infinita lista de atividades presenciais disponíveis. Abarcar pouco é não abarcar nada. É conhecer uma gota que pode não ter intersecção com a que outras pessoas conhecem.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Circunstancial vs. abstrato

Prático: Hoje preciso assistir ao jornal. Parece que o presidente fez um discurso que foi considerado muito polêmico por determinados grupos.

Teórico: Como você consegue se preocupar com isso quando há tantas questões mais amplas em aberto? Por exemplo, todos os átomos do Universo são só 5% da matéria que existe, e não fazemos ideia do que é o restante. Indo mais longe: não sabemos se existem outros Universos paralelos ao que conhecemos, o que poderia mudar o modo como enxergamos nossa existência. Nem temos ideia se existe vida em outros planetas da nossa própria galáxia!

Prático: É verdade. Mas não consigo me importar mais com isso do que com as coisas que acontecem no meu próprio país, e ainda por cima neste dia, que é exatamente quando estou assistindo ao jornal!

Teórico: O ser humano existe há pelo menos 100 mil anos. Pode ser uma coincidência estarmos aqui justamente hoje... Poderíamos muito bem ter nascido mil anos no passado, quando não existia televisão ou presidente, ou mil anos para o futuro, quando haverá preocupações muito diferentes das que agora nos inquietam. Por isso não consigo dedicar tanta preocupação para o que acontece especificamente hoje e neste país. Situações semelhantes podem estar se passando aos montes com presidentes ao redor do mundo, agora mesmo. E isso não te preocupa?

Prático: Acho que não, porque eu só conheço o presidente deste país... Quanto aos mandatários anteriores, já esqueci o que aconteceu de insignificante, e isso não me interessa mais. Por que vou me preocupar com o que ficou no passado se posso ver o que ocorre neste exato momento?

Teórico: Mas você não percebe que somos uma entre 7 bilhões de pessoas que ficam perambulando em um planeta sem saber exatamente para quê? Que somos produto da evolução natural, e por isso muitas de nossas preferências e comportamentos são iguais aos dos homens da caverna ou até dos animais primitivos? Que passamos boa parte do dia trabalhando para sobreviver, enquanto evitamos pensar que não estaremos aqui dentro de um século? Ou que, daqui a mil anos, todas as marcas que deixarmos no mundo terão desaparecido?

Prático: Acho que é infrutífera a busca do sentido da vida como um fim em si mesmo. É um desafio teórico que nenhum sábio resolveu até hoje, por isso considero perda de tempo querer que meu objetivo seja entender o propósito do mundo. Prefiro resolver pequenos problemas práticos, que além de me trazerem o benefício do resultado, me dão prazer enquanto desafio, já que os seres humanos sentem grande satisfação quando encontram a solução para algo. Claro que os problemas a que me referi são insignificantes para o curso da humanidade, e principalmente do Universo. Mas enquanto tenho esses modestos prazeres, os pesquisadores mais ambiciosos, que buscam a grande resposta para a grande questão, têm que se satisfazer com a esperança de que em algum momento outra pessoa faça uma pequena descoberta.

Teórico: As pessoas passam a vida mirando os pequenos prazeres da comida, das viagens, da realização no trabalho, mas esquecem que esse modo de vida pode ser apenas circunstancial, pois não é o mesmo adotado pelas antigas civilizações, e nem mesmo por pessoas de outros países no mundo contemporâneo. Como saber se este é o modo certo de viver, quando existem tantos outros? Quem disse que não deveríamos fazer um voto de pobreza, ou então passar o dia meditando, ou ainda caçar como o homem das cavernas para ter uma vida boa? Como as pessoas conseguem viver sendo um produto de seu local e sua época, sem perceberem que seria uma grande sorte se o modo de vida que levam for o certo?

Prático: Eu só procuro me encaixar bem na nossa sociedade atual, viver tranquilamente de acordo com as condições que existem para nós. Imagine o trabalho que daria para viver cultivando a pobreza ou meditando? Seria normal em outras circunstâncias, mas acho que devo me adaptar ao mundo como ele é agora, de forma a aproveitar bem o que está disponível e não me revoltar com a eventual superioridade de outras possibilidades. Posso encarar a rotina da minha vida, como por exemplo cortar a grama, ou até mesmo pegar o ônibus todos os dias para o trabalho, também como uma meditação - pois consigo experimentar calma nessa repetição monótona e eterna, justamente por realizar as atividades sem ficar a cada momento buscando uma justificativa elevada demais para aquilo que estou fazendo. Para quem tenta enxergar o todo, isso pode parecer um comportamento de uma pessoa alienada. Mas minha filosofia particular é viver como se só existissem as coisas e pessoas que estão ao meu redor, de forma que toda a realidade seja a minha pequena rotina.

Teórico: Para mim o melhor que posso fazer é buscar o conhecimento, pois, se Newton enxergou longe ao subir no ombro dos gigantes que o precederam, e hoje podemos enxergar mais longe que Newton por estarmos em cima de uma verdadeira pirâmide humana, precisamos fazer o possível para elevar ainda mais a posição dos nossos sucessores. Quem sabe os humanos do futuro compreendam o verdadeiro motivo da vida, e possam então viver de acordo com ele. Assim poderiam ser mais felizes do que nós.

Prático: Eu acho que uma boa vida depende bastante de não se ter grandes expectativas. Viver a repetição diária, sem esperar encontrar no fim uma grande recompensa que justifique magicamente todo o esforço que fizemos, pode ser um caminho para sentir a felicidade, ou pelo menos alguma leveza e despreocupação todos os dias. Pode ser exagero achar que todo esforço será recompensado. Por isso a solução que encontrei é realizar esforços que causem prazer em si mesmos, ainda que pequenos, e não que sejam só um bilhete de loteria para um grande prêmio muito difícil de ocorrer.

Teórico: Não sei exatamente se é por usar a razão, ou se é justamente por ter um sentimento que me impede de usar plenamente a razão, mas simplesmente não consigo esquecer de todas as possibilidades em outros lugares e tempos e focar apenas no que se realizou para uma pessoa medíocre como eu. Será que a realização humana seria tão intensa se não fossem pessoas obstinadas, inquietas, insatisfeitas com tudo o que têm, e que foram capazes de inventar soluções improváveis responsáveis por melhorar de modo inimaginável nosso modo de vida? Que é quase uma arte contemplativa examinar nosso livre arbítrio e especular que podemos estar sendo apenas uma resposta natural às restrições impostas pelos genes e pela nossa sorte de encontrar bons exemplos?

Prático: Também comigo, acho que é um sentimento o que me impulsiona a enxergar a tranquilidade nos rituais do dia a dia, naquelas tarefas que parecem insignificantes mas, se analisadas posteriormente, me fizeram experimentar momentos de alegria pela simples existência do mundo, que é belo independente do motivo pelo qual o Universo surgiu ou de como nossa mente se tornou o que é. Talvez estejamos falando de dois modos de vida contraditórios entre si, mas sem que nenhum deles esteja errado na essência. Fora a possibilidade de um potencializar o outro - até individualmente, se uma mesma pessoa ao longo da vida experimentar ambos.


domingo, 3 de fevereiro de 2019

Ideias aleatórias


O meta é enfadonho?

Músicas sobre música
Poesias sobre poesia
Histórias sobre escrever, escritores ou bloqueio criativo

Filosofia sobre os limites da filosofia
Arte nonsense para redefinir o que é arte
Matemática pura

Você vai no curso de línguas
Para aprender a história e origens dos radicais
Ou para aprender a falar?

Não há mais beleza na abstração?
Uma poesia abstraindo que se trata de uma poesia
Uma arte que você acha bela sem precisar ficar lembrando que é arte
Um curso de línguas em que você não se sente em um curso de línguas



Ideias aleatórias

As crianças não sabem quase nada
E por isso acham que sabem tudo

Os adolescentes aprendem algumas coisas
E aí sim acham que sabem tudo

Os velhos sabem muita coisa
E por isso acham que não sabem nada



Como ser aclamado pela crítica

É só contar uma história
Sobre pessoas vividas, experientes, respeitadas
Que no fim percebem não ter aprendido nada
Aprendido que a ignorância da sabedoria é quase igual à ignorância da juventude
Com a desvantagem de você não poder voltar atrás porque já sabe o final

sábado, 19 de janeiro de 2019

Geral vs. particular


Técnico: percebo um encadeamento sequencial dos esforços que fiz na vida. Primeiro aprendi a falar. Isso me possibilitou aprender a ler. Em seguida, mergulhei nos livros do assunto que descobri gostar, então fui para a faculdade, em um curso nesta linha. Depois, nisto vivi experiências práticas no trabalho; continuo lendo para conhecer novas ideias, participo de eventos com pessoas da mesma área que vêm de todos os lugares, onde cada um discute sua perspectiva e mostra os avanços que fez. Desta forma, tenho décadas de experiência em um tema e posso dar uma contribuição concreta para a humanidade, apresentar algo de novo que vai beneficiar a vida das pessoas, ao mesmo tempo que tudo servirá de base para os que virão avançar depois de mim

Filósofo: já eu também aprendi a falar e ler. Na escola, tinha algum interesse por todos os assuntos, mas não conseguia escolher nenhum como preferido. Na faculdade, naturalmente fiz um curso específico, mas, ao contrário de alguns colegas, não conseguia me desligar das outras possibilidades do mundo. Hoje, trabalho em uma área diferente daquela que estudei. Percebo que alguns colegas se dedicam profundamente a algum tema ligado à carreira, que pode levá-los a ser muito disputados. Já eu, sempre que posso, acabo lendo sobre assuntos de interesse pessoal que não têm contribuição direta na minha produtividade, de forma que não sinto estar investindo para lapidar alguma habilidade específica.

Técnico: eu já tive alguma tendência a isso também. Mas logo percebi que não me sentia confortável em um mundo diferente do meu. Primeiro, cada grupo tem seus jargões, seus métodos específicos. Seria um esforço hercúleo tentar dominar profundamente uma matéria que não conheço. Depois, o tempo que eu dedicaria em outra área não seria aproveitado para alavancar meus conhecimentos no meu campo. É quase como a teoria econômica: investindo naquilo que já sei me torno ainda mais único, como se fossem juros sobre juros, e investindo em algo que não domino, teria apenas um pouco de conhecimento geral a mais, não me diferenciando da massa.

Filósofo: percebo isso, e tenho consciência de que nunca chegarei a ser um às em nenhuma matéria, nunca ganharei milhões por deter algum conhecimento raro e cobiçado. Entretanto, não posso negar que me dá prazer conhecer o básico de cada coisa. É quase como a sensação de satisfação que temos ao acalmar alguma coceira no corpo. Quando começo a ir muito fundo em um assunto, sinto-me puxado para aqueles temas que abandonei, como se o mundo estivesse acontecendo lá fora e eu preso em um mesmo lugar. Tudo me puxa ao mesmo tempo, noto até ansiedade ao não poder abarcar as várias possibilidades concomitantemente.

Técnico: já o meu prazer vem de eu ser considerado raro, de tudo aquilo que construí pacientemente me colocar num lugar privilegiado, inacessível para maioria das pessoas. A satisfação de que me privei ao não conhecer várias coisas é compensada pela sensação de haver montado um castelo que não pode ser alcançado pelos concorrentes, já que estou alguns anos à frente da maioria deles.

Filósofo: percebo que há mistérios profundos que você domina e eu jamais teria a pretensão de conhecer. Da mesma forma, existem mistérios simples, dos mais variados tipos, dos quais posso dizer que tenho um conhecimento razoável, mas que não enxergaria se tivesse me dedicado a um único tema. Realmente não consigo me imaginar sem ter essa visão geral das coisas, que muitas vezes parecem se conectar e dar origem a uma compreensão integrada do mundo, ainda que certamente eu ignore dimensões inteiras.

Técnico: para mim é natural me concentrar longamente em um único problema; sinto o que dizem ser o "fluxo", e as horas passam sem eu o perceber. Também não ignoro a sensação boa que surge quando faço um avanço.

Filósofo: já eu às vezes me pergunto se não tenho algum déficit de atenção, pois sempre que me atenho a um assunto por mais que certo tempo, já sinto a necessidade de mudar de ares. Mas, também acho que posso contribuir com o mundo, se conseguir me dedicar a um projeto por tempo suficiente para produzir algo inspirador, ou que ajude as pessoas comuns a, de maneira leve, enxergar as coisas de modo mais conectado e abrangente...

Técnico: muitos acham que tenho uma vida invejável, que fiz tudo como deveria ser feito. Sem dúvida estou em uma posição respeitável. Também não posso reclamar financeiramente, pois sempre haverá alguma demanda pelo que posso oferecer.

Filósofo: como não ultrapasso o nível intermediário em qualquer assunto, percebo que sempre há alguém que sabe mais que eu. Desta forma, acabo não dando a palavra final nos debates, já que alguém com conhecimentos mais completos sempre tem alguma coisa mais a oferecer. Também no trabalho não me encontro em vantagem competitiva, uma vez que aquilo que sei fazer muitos também o fazem da mesma forma. Mesmo assim, buscar conhecer todos os aspectos do mundo, para tentar ligá-los, e com isso conseguir pensar sobre as grandes questões humanas, é algo de que não consigo abrir mão. Saciar a minha sede acaba sendo o meu trabalho, meu energético e minha recompensa..

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Especulação teórica sobre como nos comportar

Como ter a tranquilidade de um aposentado (que idealmente tem um fluxo de receitas e despesas sustentável até o infinito e não precisa ficar pensando no assunto) desde já?


Premissas

1) trabalhamos para sobreviver e guardar dinheiro para a nos aposentar (ou seja, não precisar mais trabalhar)

2) enquanto guardamos dinheiro, temos a tendência de ter preocupações financeiras (o dinheiro que estamos guardando precisa render mais e precisamos guardar mais)

3) na aposentadoria, precisamos ter dinheiro suficiente apenas para uma vida simples, mas tranquila (ou seja, sem preocupações financeiras quanto a guardar ou fazer o dinheiro render)

4) se começarmos a ter uma vida tranquila (sem preocupações financeiras) apenas na velhice, não conseguiremos aproveitar tanto como se começássemos agora

5) o trabalho faz parte do homem, ou seja, trabalhar traz sentido à vida

6) na aposentadoria, poderíamos dedicar a energia do trabalho para algo livre (analisar os fundamentos das principais empresas da bolsa e publicar as informações na internet, aprender econometria, aprender a fazer discursos)


Consequências

1) se pararmos de trabalhar agora, teremos dinheiro suficiente para a aposentadoria e aproveitaremos mais a vida (premissa 4), mas não teremos o prazer que o trabalho traz enquanto sentido (premissa 5)

2) se trabalharmos até a velhice, teremos bem mais dinheiro que o suficiente para a aposentadoria, e teremos o prazer que o trabalho traz enquanto sentido (premissa 5), mas não poderemos aproveitar tanto a vida (premissa 4)

3) se pararmos de trabalhar agora e, para termos o prazer que o trabalho traz enquanto sentido (premissa 5), trabalharmos com algo livre (premissa 6), estaríamos fazendo algo análogo ao que poderíamos ter feito sem parar de trabalhar, mas ganhando menos dinheiro

4) a maneira de, ao mesmo tempo, aproveitar mais a vida (premissa 4) e ter o prazer que o trabalho traz enquanto sentido (premissa 5), é continuar trabalhando sem se afetar pelo fato de que o dinheiro precisa render mais e precisamos guardar mais, até porque, como continuaremos trabalhando, mesmo que o dinheiro não renda muito e mesmo que não guardemos tanto, teremos o o suficiente para a aposentadoria na velhice

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Referência circular



Trabalho para poder comer bem
Como bem para conseguir trabalhar melhor

Trabalho bastante para poder dormir com conforto
Dormir um bom sono me ajuda a trabalhar bastante

Trabalho para poder comprar roupas boas
Compro roupas boas para usar no trabalho

Trabalho para poder descansar no domingo
Descanso no domingo para render mais na semana

Dizem que o homem, ser social, precisa do convívio com os demais
Pois é no trabalho que tenho os amigos do dia a dia

O homem também deve se divertir
Para isso existem as risadas sobre colegas e a chefia

O trabalhador trabalha para viver
E vive para trabalhar?

Pode parecer referência circular
Mas quem sabe é uma identidade...
E o homem não trabalha, mas é trabalho