quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Distribuição de sensibilidade

A política tenta implementar condições de igualdade de oportunidade para todos.

Se todos começarem do mesmo ponto de partida, poderia ser aplicado o conceito de meritocracia.

Entretanto, o poder público só consegue atuar em restritas dimensões da vida humana.

Por exemplo, as pessoas são dotadas de habilidades muito diferentes entre si. Quem nasce com as competências de maior valor econômico fica em vantagem.

Mas não é só isso... A beleza física das pessoas é diferente, e isso pode ter grande influência ao longo da vida, determinando destinos e vivências.

Mas o objetivo deste texto é analisar a capacidade de perceber a beleza na arte e na natureza. Jung listou esse como um dos cinco fatores mais ou menos básicos que contribuem para a felicidade na mente humana.

Duas pessoas com riqueza e beleza semelhantes, e com uma vida igualmente confortável, podem ter grandes diferenças na sua "eudaimonia", se a capacidade de apreciar a beleza for muito diferente.

Algumas pessoas entram em êxtase ouvindo músicas, são profundamente tocadas apreciando quadros, ou tem momentos de epifania lendo livros. Para outras, essas expressões artísticas são indiferentes.

Isso a princípio não pode ser compensado por políticas públicas, e talvez não totalmente aprendido.

Embora Hume tenha falado sobre as habilidades que precisam ser desenvolvidas para apreciar a beleza, pode ser que exista um forte componente inato, como acontece por exemplo na pintura. Por mais esforçado que seja um artista, não chegará tão longe quanto o gênio.

Uma das pessoas terá experiências sofisticadas, conhecerá o sublime e o êxtase.

A outra ficará absorta em passatempos estáticos e diversões repetitivas.

Em algum conceito de felicidade, uma estará a frente da outra.

Inclusive pode desenvolver profunda inveja da capacidade da outra de se deslumbrar constantemente com o sublime. Uma inveja da profundidade, da possibilidade do outro transitar por locais cujo acesso é negado para aqueles de sensibilidade básica.

Em uma sociedade em que todos tivessem renda e beleza semelhantes, a hierarquia se ordenaria com base na riqueza interior. Aqueles capazes de criar significado e apreciar a beleza seriam a aristocracia, enquanto os demais seriam os miseráveis.

Mas isso se os "elevados" ostentassem demais como seus dons os levam para um estado de prazer superior, a ponto de formar maioria na opinião pública. Do contrário, poderiam ser tratados apenas como esnobes que forçam uma sofisticação para se achar melhores.


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