segunda-feira, 2 de julho de 2012

Contribuição ao estoque de conhecimento humano - um trade-off

Queremos deixar nossa marca no mundo. Entregá-lo melhor que o encontramos. Fazer alguma coisa como gratidão aos que fizeram antes. Sermos úteis, com eficácia e eficiência.

Nossas oportunidades espalham-se entre dois extremos. Podemos eleger uma área do conhecimento, dentro dela uma disciplina, dentro dela uma linha de pesquisa, dentro dela um tema específico, e a um tópico deste dedicar nossos melhores anos de capacidade intelectual. Se tivermos sucesso, traremos uma real inovação que perdurará, embora provavelmente com impacto limitado no oceano de descobertas feitas rotineiramente. Risco: baixo; potencial de contribuição: modesto.

Por outro lado, podemos eleger temas amplos, como o porquê da vida, a existência de Deus, a sobrevivência além-físico. Aí estaremos flertando com grandes contribuições ao mundo, mas com chance de sucesso diminuta, quase como um bilhete de loteria. Provavelmente seremos inúteis. Risco: elevado; potencial de contribuição: radical.

domingo, 1 de julho de 2012

O que será do homem sem desafios?

No passado. Fazer expedições selva adentro em busca de mantimentos, que durariam no máximo poucas semanas. Trabalhar de sol a sol na lavoura, para levar uma vida no limiar da inanição. Colocar a coragem à prova em aventuras pelo mar misterioso. Viajar longas distâncias em condições precárias, sempre se deparando com o desconhecido. Em laboratórios bagunçados, desenvolver a engenharia básica, resultando em importante progresso material à humanidade.

Hoje. Ingressar no setor público e desenvolver trabalho burocrático, na certeza da segurança financeira até o final da vida. Encontrar no supermercado da esquina alimentos de fácil preparo e preço acessível. Realizar qualquer sonho de consumo com um clique na internet. Deixar as profissões de risco para trabalhadores altamente especializados ou robôs. Se nenhuma iniciativa individual for bem sucedida, contar com a rede de proteção estatal.

O desafio humano do século XXI é reduzir custos e cumprir metas corporativas.

A aventura ficou relegada ao simulacro dos esportes radicais. A participação é desnecessária e voluntária, o que tira boa parte do mérito do sucesso.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O que está por trás do "conhece-te a ti mesmo"?

Este é um dos grandes mantras do mundo de hoje, embora exista há 2 mil anos. Usado por esportistas, executivos, pessoas que vivem situações de estresse, ou por quem busca algo mais que a vida padrão.

Mas o que exatamente desejamos conhecer de nós mesmos? Os limites físicos? As possibilidades da inteligência e da criatividade? A capacidade para lidar com situações adversas?

Supor que a resposta à pergunta chave resolveria nossos problemas significa supor que já viemos prontos. Que somos seres finalizados e nossas habilidades estão em algum lugar, basta descobri-las. Se achássemos que somos seres novos, pedras brutas, como uma página em branco, o lema seria "cria-te a ti mesmo".

Será que não somos um pouco como o cachorro que corre atrás do rabo? A cada reação que temos a determinada circunstância vivida, julgamos que nos conhecemos melhor. Mas para que isso serve, se a mesma sequência de circunstâncias dificilmente se repetirá? Ou se provavelmente importa mais como poderíamos agir, em vez de um histórico completo de nossa resposta a cada estímulo?

sábado, 9 de junho de 2012

Fábula - À própria sorte

Há 13 bilhões de anos nenhuma entidade divina interfere no mundo. As condições iniciais foram dadas, algumas poucas constantes fundamentais da Física foram ajustadas, e o resto avançaria por si só. Em algum momento seriam formadas galáxias, sistemas planetários, mundos habitáveis. E depois, com probabilidade estatisticamente relevante, a matéria viraria vida e esta gradualmente adquiriria inteligência, até conseguir perguntar de onde veio e para onde vai.

Era esperado que mil teorias fossem propostas para explicar origem e destino do mundo, mas as equivocadas implacavelmente ruiriam com a ação do tempo, por longo que fosse. Nunca haveria oficialmente o certo ou errado, mas se chegaria a maneiras de viver com menos sofrimento e de evoluir com eficiência. Quando os seres inteligentes decidissem se aventurar, poderiam ganhar controle sobre as leis a que sempre estiveram sujeitos. Experimentariam reprogramar ao mundo e a si mesmos para atender a seus interesses, e para imprimir sentido às suas vidas. Quando conseguissem ser como deuses, imortais e capazes de criar mundos, sua expressão máxima teria sido alcançada.

O risco da vida simples

Vem crescendo nas mídias alternativas um chamado à vida simples, segundo a qual o consumo vai para o fim da hierarquia e o bordão principal lê-se "deseje aquilo que já possui".

O modelo de vida baseado em ambições, majoritariamente vigente, tem seu ponto positivo: fornece um sentido para os engajados na ascensão social. É somente quando as metas de uma vida foram cumpridas que começam a surgir crises existenciais, percepção do absurdo e uma busca por respostas fundamentais.

Mas, para os adeptos da indiferença em relação ao poder do capital, pode acontecer dessas indagações perturbadoras surgirem logo no início da vida adulta. Uma vez que já se está satisfeito com o mínimo necessário, o que fazer agora? Para onde direcionar os escassos grãos da ampulheta humana?

Livre arbítrio no materialismo absoluto

Se nós e o mundo somos puramente matéria, não havendo um espírito metafísico acoplado a nossos corpos físicos, proponho a hipótese de que o livre arbítrio não existe.

Isso sem entrar no mérito de teorias segundo as quais nossas ações são produto da genética ou de acontecimentos passados.

Átomos e partículas subatômicas têm seu comportamento ditado por leis das quais não podem escapar. Ainda que seja virtualmente impossível calcular o efeito combinado das 1029 partículas do cérebro humano. Ainda que haja um predomínio de comportamentos aleatórios oriundos do Princípio da Incerteza. Pode haver uma imprevisibilidade intrínseca, insuperável pela melhor calculadora, mas não há ingerência humana na mecânica dos átomos que formam seu próprio pensamento. Somos comandados por uma física alheia à nossa vontade - uma física que em macroescala forma a nossa vontade.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Em que lugar do mundo está o segredo?

Temos o sonho de viajar para lugares distantes, para adquirir experiências e sabedoria.

Pois só numa viagem exótica e intensa poderíamos entrar em contato com conhecimentos que não devem estar disponíveis nesta terra banal onde nascemos.

Então porque não ficar aqui mesmo e fazer um esforço genuíno para adquirir domínio sobre nós mesmos, conseguindo: acordar cedo sem preguiça, fazer exercício sem procastinação, melhorar na arte de argumentar e ter ideias, controlar a irritabilidade, impaciência e inveja, vencer o egoísmo, etc.?

São estes problemas prioritários, cuja solução provavelmente prescinde de uma fantástica circum-navegação.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Experimento Mental - Contribuição para o conhecimento

Seja uma escala do conhecimento possível sobre o mundo, de 0 a 100.

0 significa ignorância total, menos conhecimento que um animal que apenas usa instintos básicos.

100 significa toda a sabedoria possível de ser assimilada pela espécie humana.

Suponha-se que o conjunto da humanidade atual esteja em 50, embora cada pessoa individualmente esteja necessariamente abaixo deste índice.

Será que é mais virtuoso:
  • dedicar todos os esforços para elevar os conhecimentos da sociedade para 50,001?
  • ou dedicar todos os esforços para elevar o conhecimento de várias pessoas de 25 para 30?

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O sentido da vida descoberto pela intersecção de conjuntos



Esta é nossa única vidaViveremos para sempre
Deveríamos corrigir nossas imperfeições como a inveja, a preguiça, a timidez e a irritabilidade para termos uma vida mais tranquila e feliz.Deveríamos corrigir nossas imperfeições como a inveja, a preguiça, a timidez e a irritabilidade para que esta vida seja melhor aproveitada e para que essas deficiências fiquem superadas para as próximas vidas.
Devemos buscar conhecimento (das ciências naturais e sociais, habilidades artísticas, argumentação filosófica, de nós mesmos) para que a vida seja mais plena, para termos mais poderes, para não sermos enganados por aproveitadores, para termos segurança financeira, e porque aprender coisas novas traz felicidade.Devemos buscar conhecimento (das ciências naturais e sociais, habilidades artísticas, argumentação filosófica, de nós mesmos) para realizarmos algo útil nesta vida e para evoluirmos para as vidas futuras.
Devemos deixar alguma contribuição para o mundo como forma de gratidão a todos os que vieram antes de nós e nos trouxeram conforto e explicações sobre o funcionamento de tudo.Devemos deixar alguma contribuição para o mundo como agradecimento e para encontrar um mundo melhor nas nossas futuras vidas.
Devemos evitar o vício em comida, sexo, diversão e psicotrópicos porque o ser humano torna-se insaciável; a felicidade nunca é atingida, como a cenoura pendurada à frente do coelho. No final acabaremos arrependidos.Devemos evitar o vício em comida, sexo, diversão e psicotrópicos para sobrar mais tempo para o próprio aperfeiçoamento e porque a verdadeira vida é a espiritual, e não a física.
Devemos nos propor a passar bons momentos com pessoas de quem gostamos, porque isso traz felicidade.Devemos nos propor a passar bons momentos com pessoas de quem gostamos, porque isso traz felicidade e para criar vínculos que poderão perdurar indefinidamente.



Não se fazem mais gênios como antigamente?

Por que a esmagadora maioria das lendas artísticas da humanidade criou suas obras há séculos atrás?

Mozart (1756-1791), Beethoven (1770-1827), Chopin (1810-1849) ainda não foram superados, pelo menos como ícones de genialidade. Mas hoje mais pessoas estudam música erudita, há abundância de recursos econômicos e técnicos, além de uma teoria mais sólida e mais mestres virtuosos para ensinar.

Sheakespeare (1564-1616), Dostoiévski (1821-1881), Cervantes (1547-1616), Machado de Assis (1839-1908) ainda são considerados inigualáveis pela cultura contemporânea. E hoje há bilhões de indivíduos alfabetizados, com acesso a brutal conteúdo literário e facilidades tecnológicas para escrever.

Da Vinci (1452-1519), Michelangelo (1475-1564), Van Gogh (1853-1890) são os que têm as obras mais celebradas, mais invaloráveis. Mas nunca houve tantos pintores amadores, profissionais ou acadêmicos no mundo como hoje.


Algumas hipóteses:

  • hoje o estilo em voga é o pós modernismo. Os artistas atuais não produzem obras simples como antigamente, porque querem seguir o estilo da época em que estão vivendo. Por isso as novidades são ininteligíveis para os leigos
  • qualquer jovem que queira se ilustrar em arte começa pelos clássicos, para depois chegar aos contemporâneos. Mas existe um acervo tão grande que uma vida não é suficiente para se apreciar tudo o que foi feito há séculos atrás e ainda sobrar tempo para dedicar aos contemporâneos
  • os clássicos esgotaram todas as técnicas possíveis dentro de sua especialidade. O máximo que um artista atual consegue fazer são pequenas variações em cima dos pioneiros, ou obras disruptivas que não são digeridas facilmente
  • os artistas antigos foram os primeiros, e como conseguiram se estabelecer bem com suas numerosas obras primas, criaram uma barreira natural à entrada de novos competidores. Algo semelhante com o que uma grande empresa faz, ao dificultar o crescimento de pequenos concorrentes
  • o acervo artístico cresceu tanto que hoje é impossível conhecer e entender tudo, então todos ainda se apoiam nos clássicos para ser possível conversar sobre arte com o restante da humanidade
  • alguns artistas de hoje virarão gênios que superarão os clássicos daqui a 200 anos, quando sua genialidade for aceita e assimilada. A historia e cíclica
  • hoje a concorrência entre arte de qualidade é tão grande que a atenção da crítica e público ficam pulverizadas. Nenhum nome consegue se catapultar para o topo da história da humanidade
  • as obras de hoje são superiores em relação às do passado, mas é necessário profundo conhecimento e anos de estudo para reconhecer isto. Assim, a grande massa leiga jamais lhes dará o valor que merecem, e ficará restrita ao que sua capacidade permite abarcar

É possível se eternizar?

Tenho a sensação de que, no presente estágio da humanidade, todas as contribuições que uma mente normal poderia trazer para o conhecimento humano já foram feitas antes por outra pessoa.

Quem não estiver nos 0,0001% superiores da capacidade (intelectual, moral, artística, cognitiva, ...) possível ao homem não conseguirá eternizar seu nome como alguém que fez grande diferença no planeta.

Dentre os problemas em aberto da ciência, restam apenas aqueles que requerem grande especialização em uma pequena área do conhecimento, e que já receberam milhares de horas da dedicação das mentes mais brilhantes do mundo.

No mundo das artes, é difícil que um nome da atualidade supere (não basta igualar, quando não se é pioneiro) os feitos de músicos e pintores de séculos atrás, por exemplo.

É de certa forma uma consequência da democratização: quando muitos podem fazer algo, ninguém se destaca.

sábado, 19 de maio de 2012

Consequência religiosa

Segundo muitas religiões, tanto as que pregam o céu/inferno quanto as que creem na reencarnação, quando morrermos deveremos, durante longos anos, apenas refletir sobre o que fizemos na vida, sobre o valor das experiências.

Se isso é verdade, então não é uma perda de tempo refletir agora? Não deveríamos usar todo o tempo possível tendo experiências que são exclusivas do planeta Terra?

Claro que algumas reflexões são importantes para que a vida seja melhor aproveitada. Mas outras são de cunho mais teórico/filosófico, que não trazem grande aplicabilidade prática e poderiam ser deixadas para quando tivermos todo o tempo do mundo para elas.

A maioria é agnóstica

Poucos são os que se dizem agnósticos. Mas, segundo uma das acepções do termo, agnosticismo é a visão de que a existência ou não de divindades e realidades metafísicas é incognoscível. Ou seja, para a ciência que os humanos conseguem desenvolver seria impossível conhecer Deus e o mundo espiritual.

É exatamente isso que a maioria das religiões prega. Algumas dizem que fenômenos relativos a Deus são um mistério. Outros falam que questionar é pecado. E praticamente todos afirmam que a comprovação do mundo extrafísico é totalmente baseada na fé - só ela tem o poder de nos revelar e fazer sentir a verdade, que não é acessível aos instrumentos terrenos.

Mas esta fé não é aceita pelo método científico como prova. É uma questão individual, cada um deve experimentá-la sozinho. Mas por ser algo difícil de comunicar, fica difícil sabermos se estamos tendo fé corretamente - se não estamos deixando de descobrir coisas maravilhosas por ter pouca fé ou se não estamos indo para o mundo da imaginação por ter fé demais.

Por isso, quando as religiões afastam o reino dos céus das comprovações humanas, acabam passando para os fiéis uma visão agnóstica, segundo a qual jamais se saberá exatamente como o mundo realmente é.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Fábula - Fim da infâcia

Imaginemos a seguinte fábula.

É possível voltarmos ao momento da nossa criação, e brincar de Deus. Escolheremos tudo o que quisermos para nossas vidas. Há liberdade completa, para que em 2012 possamos ter a convicção de que há um sentido da vida claro, único, imutável, indubitável, do qual não desviaremos nossa atenção um segundo sequer, e sentiremos uma alegria constante por havê-lo descoberto.

Podemos escolher a imortalidade do espírito, podemos dar aos homens uma missão específica, podemos criar leis justas que compensarão os bons no longo prazo. Podemos determinar que a verdade é o hedonismo, ou o pela vida de acordo com a natureza, ou o existencialismo.

Isso nos satisfaria em 2012?

Se houvéssemos decidido pelo hedonismo, poderia haver uma revolta humana. Isso porque o homem em algum momento percebe que o prazer é viciante e apenas impõe ansias por um prazer ainda mais intenso. A realização do objeto de desejo, paradoxalmente, cria insatisfação, pois uma demanda maior surge automaticamente.

Escolhendo pela vida de acordo com a natureza, acharíamos nossa capacidade subestimada. Uma vez que podemos refletir sobre a origem e destino do universo, as leis da moral, por que fomos criados, etc., não há como nos contentarmos em vivermos como animais, ainda que em total simbiose com a natureza.

O mesmo se o homem tiver uma missão específica, que use apenas parte de sua capacidade intelectual. Pois certamente ele gostaria de experimentar uma possibilidade mais plena, em que seus dons criadores fossem usados no nível máximo.

Escolhendo o existencialismo, não nos acharíamos em situação tão diferente do real 2012, quando é extremamente confuso criar um sentido para a própria vida. Seríamos pequenos deuses, mas sem consciência cabal disto, o que limitaria nossa capacidade de ação.

Sendo a vida humana finita, voltariam os clamores do absurdismo, de que não faz sentido existirmos com nossa capacidade mental abstrata se simplesmente sumiremos para sempre em algum momento.

Se decidíssemos dar ao homem a vida eterna e, muito importante, a certeza dela, provavelmente o sentido seria evoluir infinitamente, rumo ao desconhecido, mas nunca atingindo a linha de chegada. Mas quem garante que havendo esta certeza não reinariam a preguiça, a postergação das metas para uma futura vida mais próspera, a falta de cuidados consigo mesmo e a humanidade, etc.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Como investigar a imortalidade

Já argumentamos anteriormente que o sentido da vida pode estar umbilicalmente conectado com a continuidade ou não da consciência individual após a morte física (mas não necessariamente).

Seria então uma nobilíssima área de pesquisa a investigação dessas possibilidades. Nós leigos não sabemos até que ponto a ciência formal se ocupa da matéria, ou se o tema é levado a sério pelas alas majoritárias.

Fato é que comportar-se de maneira absolutamente cética não permite eventuais avanços. Algumas pessoas podem não negar a priori a importância do tema, mas têm postura agnóstica, no sentido de que seria impossível para as ciências naturais analisar fenômenos de ordem metafísica, pois estes não seriam falseáveis.

Ao contrário, julgamos que ainda não há qualquer certeza sobre a impossibilidade de se chegar a grandes descobertas na área com o uso do método científico. Devido à influência que resultados inesperados teriam no futuro da vida humana, novas investigações são de capital importância.

A principal linha de pesquisa que vislumbramos são as habilidades inexplicáveis supostamente apresentadas por algumas pessoas. Afinal, se por exemplo ficasse comprovado que uma criança fala um idioma com o qual jamais teve qualquer contato, ou que Mozart atingiu feitos impossíveis para um cérebro humano de tenra idade, e fossem encontrados casos semelhantes em número suficiente, a viabilidade de uma explicação metafísica ficaria inconteste.

Na literatura popular de não ficção, há autores tentando defender os mais diversos pontos de vista. Genius Explained quer mostrar que prodígios da humanidade, como Mozart ou Faraday, são produto do meio em que viveram juntamente com uma personalidade propensa a trabalho árduo. Já em A Volta conta-se a história de uma criança com lembranças de vidas passadas, que em tese poderiam ser documentalmente comprovadas - embora fossem necessários inúmeros casos semelhantes para dar credibilidade ao relato.

Fato é que quanto mais atenção os acadêmicos e a opinião pública derem ao assunto, maior é a chance de ou se comprovarem relatos do mundo do espírito ou ficar definitivamente cimentada a origem neurobiológica/ambiental de todos os comportamentos humanos.

Das pesquisas que encontramos até agora, há o site de uma pessoa que, embora se apresente como espírita, tenta pôr à prova os livros psicografados por médiuns brasileiros famosos. Dois dos principais pesquisadores acadêmicos a investigar o assunto são Ian Stevenson (já falecido) e Jim Tucker, sendo que este último criou o SOCS, índice que mediria a plausibilidade de um suposto caso de reencarnação.

domingo, 13 de maio de 2012

Prazo para corrigir defeitos


Quanto tempo temos para corrigir nossas maiores deficiências psicológicas, aquelas que nos acompanham desde criança e que nos impedem de desabrocharmos?

Se há vida após a morte, podemos nos dar ao luxo de trabalhar minuciosamente cada característica negativa, atuando em todas as suas ramificações, de forma a vencê-la definitivamente. Por exemplo, podemos dedicar 10 anos para o egoísmo, 10 para a timidez e 10 para a falta de foco. Assim na outra vida resolveremos os problemas restantes, até que num tempo remoto para a frente estaremos livres para amar, criar e compreender o mundo como seres evoluídos.

Se não há vida após a morte, não há tempo a perder. É necessário trabalhar em todas as frentes ao mesmo tempo, minimizando a influência das deficiências de forma expressa e pragmática. O importante seria amar, criar e compreender o mundo desde já, com as ferramentas que temos, ainda que de forma incompleta. Feliz daquele que conseguir, aos trancos e barrancos, mesmo com a ajuda de macetes e atalhos, avançar o máximo possível no tempo que possui.

Não é possível deixar de registrar uma possibilidade muito interessante. Vai que viveremos após a morte, mas as coisas fora feitas para não termos consciência de tal fato, de forma a buscarmos aproveitar todo o tempo possível em prol do próprio aperfeiçoamento, sem as costumeiras postergações típicas do tempo de sobra?

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Citações - Parte 2

É sempre melhor ser otimista do que ser pessimista. Até que tudo dê errado, o otimista sofreu menos.

A preguiça é a mãe das invenções.

Todos querem ir para o céu, mas ninguém quer morrer.

Você possui apenas aquilo que não perderá com a morte; tudo o mais é ilusão.

A vida não consiste em ter boas cartas na mão, e sim em jogar bem as que se tem - Josh Billings

No final, estas coisas são as que mais importam: com que dedicação amou? Quão plenamente amou? Quão profundamente aprendeu a se desprender? - Buda

Os milagres não acontecem em contradição com a natureza, mas só em contradição com o que sabemos da natureza.

Democracia é oportunizar a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um - Fernando Sabino

Não corrigir nossas faltas é o mesmo que cometer novos erros - Confúcio

Dificilmente encontramos pessoas de bom senso a não ser aqueles que concordam conosco - La Rochefoucauld

Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo - Luis Fernando Veríssimo

O mal de quase todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica - Norman Vincent

Se sabemos exatamente aquilo que vamos fazer, para quê fazê-lo? - Pablo Picasso

Não devemos ler escritos sobre a matéria acerca da qual estamos refletindo, do contrário atamos o gênio - Kant

A coisa principal da vida não é o conhecimento, mas o uso que dele se faz - Talmude

Um pouco de conhecimento que age vale infinitamente mais do que conhecimento que é ocioso - Kahlil Gibran

Se choras porque não consegues ver o sol, as tuas lágrimas impedir-te-ão de ver as estrelas - Tagore

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinhos, outras há que sorriem por saber que os espinhos têm rosas.

A porta mais bem fechada é aquela que pode ser deixada aberta.

Evitar a felicidade com medo que ela acabe é o melhor meio de ser infeliz.

Se à primeira vista a ideia não for absurda, então não há esperança para ela - Albert Einstein

Nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons - Freud

Nada inspira mais coragem ao medroso do que o medo alheio - Umberco Eco

Não existe vento favorável para o marinheiro que não sabe aonde ir - Sêneca

O homem de bem ajuda os outros a atingir o bem. Não ajuda os outros a atingir o vício - Confúcio

Acredito que algumas das maiores mentes que até hoje existiram não tenham lido nem a metade e soubessem consideravelmente menos do que alguns de nossos medíocres acadêmicos - Lichtenberg

Quando duas pessoas se encontram há, na verdade, seis pessoas presentes: cada pessoa como se vê a si mesma, cada pessoa como a outra a vê e cada pessoa como realmente é - William James

Se pudéssemos ler a história secreta de nossos inimigos, encontraríamos na vida de cada homem aflição e sofrimento suficientes para desarmar qualquer hostilidade - Henry Wadsworth Longfellow

Para aquele que dominou a mente ela é o maior dos amigos; mas, para aquele que não conseguiu, é o pior dos inimigos - Bhagavad Gita

Uma diminuição da hipocrisia e um aumento do autoconhecimento só podem resultar numa maior consideração para com o próximo, pois somos facilmente levados a transferir para nossos semelhantes a falta de respeito e a violência que praticamos contra nossa própria natureza - Jung

A felicidade é um estado de satisfação da alma, expressão de harmonia total entre as nossas aspirações e as realidades da vida. E por isso julgo mais simples atingir a felicidade pela renúncia do que pela procura e satisfação de necessidades sempre mais numerosas e intensas - Antonio de Oliveira Salazar

Com respeito ao homem benevolente, ele estabelece para outros situações que deseja para si próprio. Ele conduz a outros para chegar onde ele próprio deseja chegar. A capacidade de se estender de si próprio aos outros pode ser considerado o caminho para a benevolência - Confúcio

Pois o homem que pensa por si mesmo se familiariza com as autoridades por suas opiniões somente depois que as adquiriu e meramente como uma confirmação delas, enquanto o filósofo de livro começa com as suas autoridades, e dessa forma constrói suas opiniões juntando as opiniões dos outros: a sua mente, então, se compara à do primeiro como um autômato se compara a um homem vivo - Arthur Schopenhauer

Conheça ao menos sua incapacidade para crer, já que a razão o leva a isso, e assim você não consegue crer. Trabalhe então para se convencer, não pelo aumento das provas de Deus, mas pela diminuição de suas paixões. Você gostaria de ter fé, e não sabe o caminho; você gostaria de se curar da descrença, e pede uma solução. Aprenda com os que estiveram atados como você, e agora apostam todos os seus bens. São pessoas que conhecem o caminho que você gostaria de seguir, que estão curadas de uma doença da qual você gostaria de se curar. Siga o caminho pelo qual elas começaram; agindo como se acreditassem, tomando água benta, mandando rezar missas, etc. Mesmo isso vai fazer você naturalmente crer, e arrefecer sua perspicácia - Blaise Pascal, Pensamentos, 233

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Trechos de Livros - A Negação da Morte, de Ernest Becker

Maslow (A Negação da Morte, p. 76)
Nossa tendência é temer qualquer conhecimento que possa fazer com que desprezemos a nós mesmos ou com que nos sintamos inferiores, fracos, inúteis, maus, vergonhosos. Nós nos protegemos e protegemos a imagem ideal de nós mesmos por meio da repressão e das defesas semelhantes, que são essencialmente técnicas pelas quais evitamos a consciência de verdades desagradáveis e perigosas.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 80)
Não queremos admitir que somos fundamentalmente desonestos no que se refere à realidade, que não controlamos realmente nossas próprias vidas. Não queremos admitir que não ficamos sozinhos, que sempre nos apoiamos em algo que nos transcende, um certo sistema de ideias e poderes no qual estamos mergulhados e que nos sustenta. Esse poder nem sempre é óbvio: não previsa ser um deus ou uma pessoa mais forte, mas pode ser o poder de uma atividade que exija plena dedicação, uma paixão, a dedicação a um jogo, um modo de vida que, como uma teia confortável, mantém a pessoa apoiada e ignorante a respeito de si própria e ao fato de que ela não se apoia em seu próprio centro. Todos nós somos levados a sobreviver de uma maneira desinteressada, ignorando quais as energias que realmente consumimos e que tipo de mentira criamos a fim de vivermos segura e serenamente.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 161)
Os homens adoram e temem o poder e, por isso, dedicam sua lealdade àqueles que sabem administrá-lo.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 167)
Ao explicar o poder preciso que mantinha os grupos unidos, Freud também pôde mostrar por que os grupos não temem o perigo. Os membros não sentem que estão sozinhos com sua própria insignificância e seu desamparo, já que têm os poderes do líder-herói com quem estão identificados. O narcisismo natural – a sensação de que a pessoa que está ao seu lado vai morrer mas você não – é reforçado pela dependência confiante do poder do líder.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 190)
Vemos agora o que poderíamos chamar de tragédia ontológica ou da criatura, que é tão peculiar ao homem: se ele cede ao Ágape, corre o risco de não se desenvolver, o que é a sua contribuição ativa ao resto da vida. Se expande Eros em demasia, arrisca-se a separar-se da dependência natural, do dever para com uma criação mais ampla afastando-se do poder curativo da gratidão e da humildade que deve sentir naturalmente por ter sido criado, por lhe ter sido concedida a oportunidade de experimentar a vida.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 219)
Quando dizemos que a neurose representa a verdade da vida, uma vez mais queremos dizer que a vida é um problema esmagador para um animal desprovido de instinto. O indivíduo tem que se proteger contra o mundo, e só pode fazê-lo como faria qualquer outro animal: reduzindo o tamanho do mundo, barrando a entrada da experiência, desenvolvendo uma alienação tanto dos terrores do mundo quanto de suas próprias angústias. Caso contrário, ficaria incapacitado para agir. Nunca será demais repetir a grande lição da psicologia freudiana: a de que a repressão é a autoproteção normal, uma auto-restrição criativa – numa acepção verdadeira, o substituto natural do instinto, para o homem. Rank tem um termo-chave perfeito para esse talento natural do homem: ele o chama de “parcialização” e percebe que a vida é impossível sem ela. Aquilo que chamamos de homem bem-ajustado possui exatamente essa capacidade de parcializar o mundo para poder agir de maneira satisfatória. (…) Os homens não são feitos para assimilarem o mundo inteiro; são feitos, como outras criaturas, para assimilar o pedaço de terra que está diante de seus focinhos. Os deuses podem assimilar a totalidade da criação, porque só eles podem entendê-la, saber de que se trata e para que serve. Mas assim que o homem levanta o nariz do chão e começa a farejar problemas eternos, como a vida e a morte, o significado de uma rosa ou um grupo de estrelas – aí ele se complica. A maioria dos homens se poupa dessa complicação, mantendo a mente concentrada nos pequenos problemas de suas vidas, tal como a sociedade em que vivem traça esses problemas para eles. São os que Kierkegaard chamava de homens “imediatos” e de “filisteus”. Eles “se tranquilizam com o trivial” – e assim podem levar suas vidas normais.
Roy Waldman (A Negação da Morte, p. 222)
Deve ficar claro que o desespero e a angústia de que o paciente reclama não são resultado desses sintomas, mas sim a razão para a sua existência. Na verdade, são exatamente esses sintomas que o protegem do tormento das profundas contradições que estão no cerne da existência humana. Uma determinada fobia ou obsessão é justamente o meio pelo qual o homem alivia o peso das tarefas de sua vida, e consegue minorar a sua sensação de insignificância. Assim, os sintomas neuróticos servem para reduzir e estreitar – para, num passe de mágica, transformar o mundo de maneira que o paciente possa ter a atenção desviada de suas preocupações com a morte, a culpa e a insignificância. O neurótico preocupado com o seu sintoma é levado a acreditar que a sua tarefa principal é enfrentar essa determinada obsessão ou fobia. Em certo sentido, sua neurose lhe permite assumir o controle de seu destino – transformar todo o significado da vida num significado simplificado, originários do seu mundo peculiar.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 228)
Houve uma época em que eu ficava imaginando como é que as pessoas aguentavam trabalhar em torno daqueles infernais fogões em cozinhas de hotéis, a loucura do escritório de um agente de viagens no auge da temporada de turismo, ou a tortura de trabalhar o dia inteiro na rua com uma perfuratriz automática, num verão calorento. A resposta é tão simples, que nem a percebemos: a loucura dessas atividades é exatamente a da condição humana. Elas estão “certas” para nós, porque a alternativa é o desespero natural. A loucura diária desses empregos é uma repetida vacina contra a loucura do hospício. Veja a alegria e a disposição com que os trabalhadores voltam das férias para suas rotinas compulsivas. Mergulham no seu trabalho com tranquilidade e alegria, porque o trabalho abafa algo mais sinistro.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 243)
Além de um determinado ponto, o que ajuda o homem não é um “saber” mais, mas um viver e um fazer, de uma maneira que o faça esquecer parcialmente de si mesmo. Como disse Goethe, temos de mergulhar na experiência e, então, refletir sobre o significado dela. Só a reflexão, sem mergulho, nos leva à loucura; só o mergulho, sem reflexão, nos torna brutos.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 245)
Não há ninguém mais lógico do que o lunático, ninguém mais preocupado com as minúcias de causa e efeito. Os loucos são os maiores argumentadores que conhecemos, e essa peculiaridade é uma das companheiras de sua ruína. Todos os seus processos vitais se retraíram para dentro da mente. Qual é a única coisa que lhes falta e que os homens equilibrados possuem? A capacidade de serem descuidados, de não ligarem para as aparências, de se descontraírem e de rirem do mundo.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 300)
Erich Fromm já havia descrito bem o masoquismo como uma tentativa de se livrar do ônus da liberdade. Do ponto de vista clínico, verificamos que há pessoas tão fracas diante da responsabilidade que chegam até a ter medo da liberdade proporcionada por um bom estado de saúde e vigor. Na mais extrema das perversões, a necrofilia, vemos o mais extremo medo da vida e das pessoas. Um dos pacientes de Brill tinha tanto medo de cadáveres, que quando venceu esse medo tornou-se necrófilo, porque ficara fascinado pela liberadade que acabara de conquistar.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 302)
Podemos ver como são realmente inseparáveis os domínios da psiquiatria e da religião, já que ambas lidam com a natureza humana e com o significado máximo da vida. Deixar a estupidez para trás é tornar-se ciente da vida como um problema de atos heróicos, o que inevitavelmente se torna uma reflexão sobre o que deveria ser a vida em suas dimensões ideais. Com base nesse ponto de vista, podemos ver que as perversões das “religiões particulares” não são “falsas” em comparação com as “religiões verdadeiras”. São simplesmente menos expansivas, menos humanamente nobres e responsáveis. Todos os organismos vivos estão condenados à perversidade, à estreiteza de serem meros fragmentos de uma totalidade maior que os assoberba, que eles não conseguem compreender ou enfrentar de veradade – e no entanto ainda têm que viver e lutar nessa totalidade. Ainda devemos perguntar, então, à feição do sábio velho Epicteto, que tipo de perversão é adequada ao homem.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 308)
Kierkegaard tinha uma fórmula própria para o que significa ser um homem. Ele a expôs naquelas páginas admiráveis nas quais descreve o que chama de “o cavaleiro da fé”. Essa figura é o homem que vive na fé, que entregou o significado da vida ao seu Criador e que vive concentrado nas energias do seu Deus. Aceita sem reclamar o que quer que aconteça nessa dimensão visível, vive a vida como um dever, enfrenta a morte sem receio. Nenhuma ninharia é tão insignificante a ponto de ameaçar seus significados. Tarefa nenhuma é amedrontadora demais para estar acima de sua coragem. Ele se encontra plenamente no mundo segundo as condições impostas por esse mundo, e totalmente fora do mundo na sua confiança na dimensão invisível.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 308)
Como disse Kierkegaard, a fé é o que há de mais difícil: ele se coloca entre a crença e a fé, incapaz de dar o salto. Afinal, o salto não depende do homem – e aí é que está a dificuldade: fé é uma questão de graça.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 310)
Cada indivíduo resume toda uma gama de experiências muito pessoais, de modo que a sua vida constitui um problema muito característico que precisa de tipos de soluções muito individuais.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 316)
O ponto essencial da argumentação de Rieff é o clássico: para ter-se uma existência verdadeiramente humana, deve haver limites; e aquilo que chamamos de cultura ou de superego fixa esses limites. A cultura é uma solução conciliatória com a vida que torna possível a vida humana. Ele cita a desafiadora frase revolucionária de Marx: “Eu nada sou e deveria ser tudo.” Para Rieff, isso é o puro inconsciente infantil falando – ou, como eu preferiria dizer junto com Rank, a consciência neurótica: o “tudo ou nada” da pessoa que não consegue “parcializar” o seu mundo.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 320), Ars longa, vita brevis
Uma pessoa leva anos para formar sua individualidade, desenvolver seu talento, seus dons ímpares, aperfeiçoar suas discriminações com relação ao mundo, ampliar e aguçar o apetite, aprender a suportar as desilusões da vida, amadurecer, tornar-se moderada – enfim, uma criatura ímpar na natureza, situando-se com certa dignidade e nobreza e transcendendo a condição animal; não mais movida só por impulsos, não mais puro reflexo, não estampada por nenhum molde. E aí vem a verdadeira tragédia: são necessários sessenta anos de incríveis sofrimentos e esforços para formar um indivíduo desses, e aí ele só serve para morrer. Esse doloroso paradoxo a pessoa não o ignora, de modo algum. Ela se sente dolorosamente um ser especial, mas sabe que isso não faz diferença alguma no que se refere a coisas definitivas.
Ernest Becker (A Negação da Morte, p. 324)
A religião é uma experiência, e não apenas um conjunto de conceitos intelectuais sobre os quais se deva meditar; ela tem que ser vivida.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O que está por trás do "sentido da vida"

Querer saber qual o sentido da vida pode ser equivalente a buscar respostas para questões fundamentais:

  • por que existe algo em vez do nada?
  • nossa característica de ter uma inquietude profunda sobre a vida surgiu por acaso, como efeito colateral da evolução natural, ou foi criada conscientemente por um ser superior?
  • deixamos de existir, como indivíduos conscientes, com a morte física?
  • se não, viveremos para sempre ou há um limite?

Pela profundidade destas perguntas, percebe-se que compreender o sentido da vida não é tarefa simples, isolada de questões filosóficas basilares ainda inacessíveis ao nosso conhecimento.

Há também alguns pontos adicionais.

  • E se não existir sentido nenhum, caso nossa existência seja fruto do mero acaso? Sendo assim, resta o existencialismo, segundo o qual cabe a nós criar um sentido para nossas vidas. Ou seja, pesquisar o sentido da vida é inútil, e estamos perdendo tempo se não nos ocupamos desde já em construir um.
  • Supondo que fomos criados por Deus para realizar uma missão específica. Por exemplo, preparar o mundo para seres mais avançados, criando tecnologias que deem a eles conforto. Ou que somos uma experiência, para testar certos parâmetros de um modelo físico-matemático rumo à criação de uma raça mais perfeita. Isso significa para nós que este é sentido da nossa vida? Provavelmente não. Pois temos uma consciência que transcende eventuais missões mais simples, e não nos sentiríamos plenos se ficássemos apenas confinados a elas. Assim como se criássemos um robô tão complexo quanto nós mesmos para ser nosso escravo, ele não sentiria que esta é sua grande missão. Talvez esta questão recaia na anterior, e cada um teria que criar um sentido para si.

O que fazer então?

Certamente não ficar esperando de braços cruzados alguém solucionar a grande questão. Até porque a probabilidade de que se chegue a uma resposta enquanto vivermos é muito baixa. Resta-nos fazer algo que seja útil considerando os principais sentidos da vida possíveis. Certamente ao buscar intensamente o conhecimento (científico, moral, filosófico, artístico, de si mesmo, ...), e colaborar para que os outros também o busquem, não estaremos desperdiçando nosso tempo.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Para onde estamos indo?

Temos tantas atividades simultâneas, profissionais, acadêmicas, de diversão, meio que aleatoriamente escolhidas e sem grande interconexão entre si, pois não sabemos o objetivo de nossa vida. A procastinação, ausência de planejamento e falta de sentido faz com que estejamos sempre atrasados. Solução: tomar o remédio Omeprazol, para revestir o estômago atingido pelo stress.

O normal da sociedade parece ser usar o tempo livre com diversão. Por não termos encontrado o motivo de nossas vidas, não conseguimos nos encaixar neste padrão, sendo que o vício em entretenimento parece não trazer a mesma felicidade que traz para os outros. Solução: mesmo sem ter uma doença clínica, tomar Prozac ou Zoloft.

O dentista avisa que temos bruxismo, comportamento tipicamente causado por ansiedade com a vida, por insegurança com nossas escolhas, por falta de serenidade. Solução: confeccionar uma placa dentária anti-bruxismo.

domingo, 1 de abril de 2012

Entretenimento = Distrações = Obstáculo a Desviar

por Alberto Ronconi


Este blog é repetitivo às vezes. Assim como o excelente Study Hacks foca bastante na "prática deliberada" e o inspirador zenhabits insiste nos hábitos saudáveis, aqui nós falamos bastante sobre evitar distrações.

Um livro que tenta trazer o estoicismo para o presente mostra que já se tentava evitar distrações há 2000 anos atrás. Outra postagem muito interessante em um blog sobre vida simples mostra como o entretenimento é nocivo.

Essas ideias se assemelham a algumas que apresentamos aqui com frequência.

Mas o que é esse entretenimento, tão pernicioso para o aprimoramento da vida? Podem ser os hobbies, os passatempos que se leva a sério. Mas também pode ser a busca aleatória por pequenas doses de diversão, como assistir a um programa de comédia, ou ficar completamente bêbado com os amigos para rir da situação deles. Pode ser ler infinitamente romances parecidos e previsíveis, ou então uma dedicação incansável ao noticiário. São coisas que viciam, e nunca nos satisfazem completamente (um seriado costuma terminar em clima de suspense, para fazer o gancho com a próxima temporada). E além de viciar nos impedem de fazer uma programação sistemática de como utilizar bem nosso tempo.

Tudo isso nos desvia do nosso verdadeiro objetivo. Não sei exatamente qual é ele, mas não penso que seja perder tempo em coisas que nós mesmos não achamos importantes, e com as quais de certa forma sabemos que não estamos aproveitando a vida de forma útil.

terça-feira, 13 de março de 2012

O benefício de ter metas gerais, mas não expectativas exatas

por Alberto Ronconi


Para que servem as expectativas? Quando as criamos, sentimos uma espécie de felicidade antecipada que, projetada pela imaginação, é proporcional à sensação que seria experimentada quando nosso objetivo fosse atingido.

Mas quando estamos ansiosos por algo, o tempo parece demorar a passar. E para compensar, nossas expectativas vão ficando mais e mais elevadas, para que continuemos a sentir o gostinho do vislumbre da felicidade. Quando eventualmente chegamos aonde queríamos inicialmente, já parece pouco para os sonhos que cresceram exponencialmente com o tempo.

Muito pior é quando as coisas não saem exatamente do jeito que imaginamos, algo tão comum no mundo real (até se poderia dizer que é assim na maioria das vezes).

Quando temos expectativas, nos flagramos sempre torcendo para que elas se realizem, o que certamente tem alguma semelhança com o stress. Por isso é possível ser mais feliz sem elas. Algo na linha do "o que não tem solução, solucionado está", que embora pareça batido pode aliviar pesada carga de nossos ombros.

Até o fim do mês quero ter emagrecido x quilos, lido y páginas do meu livro, organizado tal gaveta de coisas esquecidas, me aperfeiçoado em tal técnica. Tudo isso pode ser altamente frustrante se, por motivos alheios à nossa vontade*, além de não atingirmos o objetivos ficamos muito longe deles, muitas vezes sequer começando.

*Vale lembrar que esses motivos alheios à nossas vontade aparecem tanto mais quanto mais rígido for o planejamento.

Mas não podemos simplesmente eliminar algo que funciona mal e não deixar nada no lugar.

Temos que ter metas de longo prazo, plausíveis, factíveis, que sentimos ser absolutamente importantes. Elas servirão para balizar o uso do nosso tempo livre, que é nossa verdadeira vida.

Por exemplo: emagrecer todos os meses, não vem ao caso quanto. Arrumar gavetas um mínimo que seja, mas que amanhã esteja melhor que hoje. Se nos últimos 20 anos não fizemos nada e só deixamos a situação piorar, se hoje poderíamos ser gênios se tivéssemos agido certo desde o começo, não importa mais. O que importa é começar a melhorar a partir de agora (não amanhã), sem focar na quantidade exata.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Gostamos de resolver problemas

por Alberto Ronconi


Por que quando temos todas as condições favoráveis, como comida infinita, moradia, segurança e estabilidade, uma das coisas que mais nos dá prazer é resolver problemas?

Muitos cientistas são movidos a isso. A física, a engenharia, a matemática, dentre tantas outras ciências, devem boa parte de sua evolução a essa característica do ser humano.

Nem importa tanto o impacto real que a solução do problema terá no dia a dia das pessoas, mas só o fato de se pensar durante um longo período sobre um assunto complexo e chegar a uma solução que antes não existia para nós e na qual tudo se encaixa já é grande fonte de prazer.

Será que os problemas são só um combustível que nos move, e reagimos a ele da mesma forma que o dependente em relação ao vício? Será que somos usados por essa satisfação que temos, unicamente para propagar nossos genes?

Há validade em criarmos problemas artificiais, apenas para experimentarmos o prazer de resolvê-los? Parece que sim, pois os jogos de videogame (especialmente quando se joga sozinho) se encaixam perfeitamente. Bem como os quebra-cabeças, palavras cruzadas, etc. Também deve ser por isso que quem é rico busca ainda mais riqueza, pois a criação e evolução de empresas representam complexos e intrincados problemas a serem resolvidos.

A questão que fica é: faz sentido resolver problemas como fim da existência, e não como meio para descobrir um eventual verdadeiro fim?

O sentido na base da pirâmide de Maslow

por Alberto Ronconi


Como seria fácil se eu soubesse que o sentido da vida é fazer algum grande sacrifício, como por exemplo cruzar o país a pé, ou passar anos comendo alpiste, ou a privação de momentos de diversão.

Bastaria realizar essa intensa provação para ter a sensação de ter vivido uma vida completa, com significado, no limite das possibilidades. Haveria grande motivação para suportar o sacrifício, pois sempre se poderia mirar no objetivo final, que é realizar a missão de uma vida, justificar os sofrimentos do mundo.

Mas os que passam por estas experiências com a finalidade de darem uma razão para sua existência parecem não receber muito em troca, podendo acabar em desvantagem em relação a quem não perseguiu a dificuldade como modo de vida.

Posso querer cruzar o deserto, ou as geleiras, ou viver numa caverna, passando pelas maiores privações e condições insalubres, que terei perdido tempo, mas não terei só por isso obtido a ansiada autorrealização.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

É possível viver a liberdade total

por Alberto Ronconi


Às vezes parece impossível nos sentirmos livres num sentido absoluto, pois dependemos de inúmeras circunstâncias do mundo físico, que parecem incontroláveis e imprevisíveis.

Como posso fazer totalmente aquilo que eu gostaria, se no futuro uma doença pode me acometer, ou uma imprevisível dificuldade que me tome o tempo pode surgir a qualquer momento? Ou um infortúnio que faça a maneira como interajo com o mundo mudar drasticamente?

Como posso me dedicar a um projeto de longo prazo, sabendo que pode ser impossível concluí-lo? Pior ainda, como posso simplesmente aproveitar o dia de maneira totalmente despreocupada, se ao mesmo tempo podem estar acontecendo fatos longe de mim que mudarão minha vida bruscamente?

Há uma possível resposta para isso, que se apoia na lógica e no bom senso, mas precisa de uma segura compreensão para ser psicologicamente viável.

A proposta é supor que nada acontecerá. Durante aquele momento ter a percepção de que só ele existe, de que ele acontece de forma isolada do mundo como um todo. A possibilidade de prolemas continua existindo, mas está fora dos domínios do momento vivido, o qual acaba por adquirir uma dimensão muito maior.

A suposição de que nada vai ocorrer estará correta na maioria das vezes, e com ela as experiências poderão ser vividas na sua plenitude. Depois volta-se para aquele estado mental no qual se tem consciência de que tudo pode acontecer.

Aplicando essa técnica o resultado total acumulado na vida pode ser bem superior se comparado à contínua consciência, potencialmente paralisante.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Da conservação do sofrimento no nível individual

por Alberto Ronconi


Há pessoas fadadas a sofrer, estejam elas passando por um período com algumas dificuldades, ou vivenciando momentos sem percalços, com tempo livre, condições relativamente favoráveis e pessoas próximas dispostas a ajudar.

Já outro conjunto de pessoas encontra-se em média vivendo mais momentos alegres, felizes. Independente de acontecerem problemas pontuais, voltam a encontrar o caminho de uma vida leve e com significado.

Isso mostraria que cada um tende para sua própria média, da qual pode haver desvios momentâneos devido aos acasos da vida. Mas no longo prazo o infeliz será infeliz, e o feliz será feliz.

Seja devido ao equilíbrio de neurotransmissores cerebrais ou pelo domínio de conhecimentos poderosos capazes de afastar a ilógica tristeza e aproximar a ansiada felicidade, observa-se que essa conjectura concorda com a realidade, pelo menos em parte.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Da não conservação do sofrimento

por Alberto Ronconi


Definamos o conceito de bem-estar. No nível máximo possível significa felicidade plena e total. No nível mínimo representa sofrimento total.

Nosso bem-estar costuma oscilar durante a vida. Temos momentos de alguma felicidade, outros de pequenos sofrimentos, alguns de grande alegria, etc. Algumas pessoas parecem passar mais anos de suas vidas com o bem-estar alto do que outras. Isso é justo?

Será que o bem-estar no longo prazo tende para uma média que é igual para todos? Quem tem um baixo nível hoje será recompensado com um alto nível amanhã? Quem sofre hoje está guardando créditos em sua conta-corrente cósmica para desfrutar amanhã? E quem está sempre bem está fadado a sofrer amanhã?

Provavelmente isto não é válido. Não é como hoje passar fome para guardar dinheiro e comer em dobro amanhã.

Uma pessoa pode cometer erros inconscientes que a levem a ter uma vida majoritariamente de sofrimento. E esse bem-estar em baixa não significa de forma alguma que amanhã as coisas se inverterão. Mantidos os mesmos erros, e ausente uma força que leve aos acertos, o sofrimento pode perdurar. É como um custo afundado; o que passou não pode mais ser mudado, só resta pensar no bem-estar de amanhã, e lamentar pelo passado só postergará ainda mais o início dos esforços para aumentar o bem-estar do futuro.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Os ateus talvez entendam melhor o sentido

por Alberto Ronconi


Os que se dizem ateus e são felizes, motivados, e engajados em deixar um legado para a humanidade, podem entender melhor do sentido da vida que os religiosos.

Isso porque eles procuram um significado para o que fazem, para sua aparição no mundo e para sua existência como seres conscientes sem utilizar conceitos baseados na fé, ligados à vida eterna, ou a um Deus que tem um projeto para cada um de nós.

Já os religiosos talvez não enxerguem sentido em uma vida que muitas vezes acham ser majoritariamente de sofrimento, e por isso entendem que o verdadeiro valor não está nesta vida, mas sim na que virá depois da morte física. Para eles, o homem não acha um significado olhando para si mesmo e para a natureza, e a existência desse significado só seria possível se fosse criado propositalmente por Deus, com objetivos claramente traçados para nossas vidas.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Faz diferença?

por Alberto Ronconi


Se tudo acaba com a morte, vivemos de um jeito X. Se teremos outras encarnações, vivemos de um jeito Y.

Mas como são os jeitos X e Y? Envolvem aproveitar o dia, ter prazer com as experiências novas, buscar conhecimentos, realizar obras.

Não parece haver uma diferença radical entre eles. Isso significa que não faz diferença se continuaremos após a morte física ou não, e não vale a pena dedicar parte importante da vida se preocupando com isso?

Se nossa vida é eterna, podemos vencer a inveja, o egoísmo, a infelicidade causada por problemas insolúveis, e outros, por meio de grandes projetos, que serão executados gradualmente e trarão resultados sólidos e perfeitos, mas talvez só sejam concluídos séculos adiante. Se tudo acaba com a morte, o ideal mesmo seria vencer essas deficiências psicológicas hoje mesmo, para aproveitar com mais plenitude o tempo que resta, sem carregar essas bolas de ferro que talvez nem façam sentido.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Soneto 3

Fundo de Investimento
(por Alberto Ronconi)

Imagine um fundo de investimento
Você não sabe quanto tem
Só que é vedado ser pão-duro
Todos os dias você resgata um pouco

O que pode fazer é desperdiçar o que sacou
Com muito esforço consegue investir bem o que tem lá
E fazer com que o fundo dure mais
Mas um erro ou crise podem fazê-lo quebrar

O que resta é aproveitar bem
As retiradas diárias, que se não usadas
São corroídas até perderem o valor

Convivendo com o fato de que um dia acabará
Esse querido fundo
Também chamado de vida

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Soneto 2

Questão fundamental
(Alberto Ronconi)


Nossa vida
Talhada cuidadosamente por Deus
Junto com um objetivo que devemos perseguir
Ou transcender

Ou o objetivo
É justamente criar um
Porque ele não foi pensado, já que somos
Aminoácidos duma feliz combinação estatística

Se tudo acaba com a morte
A vida pode fazer sentido?
Ou não faz sentido dizer que não faz sentido?

Ou pensar em tudo isso
É malgastar o tempo
Que deveria pertencer ao viver

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O sentido no equilíbrio

por Alberto Ronconi


E se o sentido da vida não for apreciar o prazer das sensações, nem galgar novos patamares de sabedoria, nem experimentar o orgulho de um grande feito, nem se dedicar à profundidade das amizades, nem sentir a alegria de fazer o bem genuíno aos outros, nem viver um grande amor? Todas essas filosofias de vida, se aplicadas com exclusividade, podem deixar uma grande sensação de vazio em quem as utilizar.

O ser humano se cansa rápido de um estilo de vida, e pior, sempre dá muito valor para aquilo que está deixando de lado. Para o hedonista não fica uma curiosidade de experimentar como é possuir erudição e conhecimentos profundos? O altruísta não tem a sensação de que um amor recíproco seria uma experiência plena e extraordinária?

Quem movimentar de forma completa e harmônica todas as engrenagens que dão sentido à vida pode acabar descobrindo que elas não cumprem sua função sozinhas, mas juntas se coordenam em prol do todo. O especialista em uma área do bem viver carece da visão do todo, intrinsecamente relacionada à busca por um sentido.

Somos apenas escravos?

por Alberto Ronconi


Pode ser que nossa única razão de viver seja a preservação da espécie, ou como mais modernamente se teoriza, do gene. Dessa forma, independente de termos sido criados propositalmente por um Criador ou não, vivemos para isso e por isso. Igual raciocínio se aplicaria a outras hipóteses, como a de que servimos para dar suporte aos super-homens que um dia despontarão, ou a de que nossa função é atender nossas próprias necessidades de prazer.

Sendo verdade alguma destas teorias, fica a questão: devemos fazer aquilo que é inerente à nossa constituição física e psicológica, ou tatear no mundo em busca de possíveis novos significados? Só seremos genuinamente felizes sendo escravos do nosso destino, ou precisamos nos rebelar contra nossa própria natureza e criar por nós mesmos alguma razão de viver que o Universo nunca cogitou?

O mistério da existência

por Alberto Ronconi


Se Deus não nos criou, e somos mero subproduto da especialização da matéria bruta, nossas vidas não têm um sentido pré-determinado. Alguns darão algum significado (profundo ou não, conscientemente ou não) para as suas, outros a considerarão um absurdo, outros serão niilistas, e a maioria nunca se preocupará seriamente com a questão. Cada um será livre para definir se sua vida tem sentido e determinar qual seria ele.

Se Deus nos criou, pode ter nos dado alguma missão específica enquanto seres humanos, ou nos deixado desenvolver por nós mesmos, rumo ao limite de nossa vontade individual. Independente de qual é a verdade, não nos é óbvio o sentido de nossas vidas. Inúmeros pensadores honestos chegaram a conclusões diferentes e incompatíveis entre si; nunca houve uma resposta definitiva. Isso significa ao menos que Deus não deixou claro o que devemos fazer de nossas vidas, e é natural que muito se percorra até que se espere chegar a alguma solução para o problema.  Então as tentativas sinceras e que respeitem a moral elementar vigente não podem ser tolhidas. Rumo a uma vida verdadeiramente bem vivida, os experimentadores de hoje podem tomar rotas erradas ou sem saída, que se espera sejam evitadas pelos do futuro, os quais darão continuidade a nossas buscas desde o ponto que formos capazes de atingir.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Consumo na justa medida

por Alberto Ronconi


De acordo com o hedonismo da Grécia antiga, a felicidade se encontra no prazer, que é o bem supremo da vida humana. Já para o estoicismo, também no conceito grego, a felicidade está no exercício constante da virtude, que é definida como a indiferença (à riqueza e à pobreza, às honras e à obscuridade, ao prazer e ao sofrimento). Os estoicos pregam que se viva de acordo com a lei racional da natureza, com uma apatia em relação a tudo que é externo ao ser.

Certamente o homem deve consumir num padrão intermediário entre a busca incessante pelo prazer material e a indiferença a qualquer bem de consumo.

Comprar de menos priva o ser humano de experiências, de conhecimento, de oportunidades.

Comprar demais atenua e até anula o prazer, transformando-o em obrigação e vício.

Mas então qual a medida ideal para o consumo?

Quando compramos pela primeira vez uma viagem para um lugar totalmente desconhecido, isso nos causa profundas impressões. Se formos de novo, o impacto será muito menor.

Se comemos um prato desconhecido e sentimos um sabor inteiramente novo, nosso conhecimento se amplia. Nas próximas vezes o impacto não será o mesmo. Inclusive se insistirmos na experiência repetidas vezes, só haverá rotina, e o prazer não terá lugar.

É imprescindível observar que a posse de bens ou a realização de atividades em excesso sem dúvida impede o homem de focar em si mesmo, sua atividade mais importante.

Dessa forma, o resultado pode ser maximizado se o consumo for amplo mas em quantidades pequenas.